Thursday, March 9, 2017

Tecnologia e Educação (UFF, 2016)

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Erickson Leon
Universidade Federal Fluminense - UFF

 
 
 
Dissertar sobre o tema do uso de tecnologia na educação em pleno ano de 2016 pode parecer um tema tão estéril quanto  debater o uso de automóveis pelo setor de transportes. Hoje é impossível pensar alguma educação, sobretudo no nível superior e de pós-graduação, sem imediatamente se ter em mente o acesso à internet para bases de dados online, materiais audiovisuais, e wikis; documentos produzidos por editores de texto ou planilhas eletrônicas e trocados por e-mails, mensagens instantâneas ou redes sociais; ferramentas de coleta de informações como câmeras digitais, gravadores de áudio, GPS, em geral incorporados em smartphones e tablets; aplicativos específicos como dicionários e tradutores eletrônicos, foto scanners, gerenciadores de tarefas e compromissos, cartões de memorização, audiolivros e livros digitais, calculadoras e pacotes de visualização gráfica para as áreas STEM*.
 No entanto, o significado da implementação destes inúmeros recursos não se traduz proporcionalmente em qualificação  do estudante que passa pelo processo educacional, como pretendemos explorar na presente exposição. Algumas das razões pelas quais a tecnologia não é capaz de proporcionar vantagens significativas em relação ao método já estabelecido é também levantado, estabelecendo-se em três eixos principais: a falta de familiaridade com a tecnologia por parte dos estudantes, professores e/ou staff, a falha no planejamento pedagógico no uso do recurso, e o uso da tecnologia apenas como meio de transmissão de conteúdos.
1. Familiaridade com a tecnologia
 Prensky1 define o termo nativo digital, em oposição ao termo imigrante digital, para aqueles nascidos após 1980. Tal conotação é aproximadamente equivalente à de Millenials 2 ou Geração Net3, como uma geração adepta tecnologicamente, com avançadas habilidades no uso de tecnologias digitais, isso devido à constante exposição desde muito cedo, durante a formação de suas primeiras capacidades cognitivas, a estas novas formas de interação com a realidade. Tais habilidades não se restringiriam a um aspecto quantitativo, mas os proponentes destas ideias argumentam a favor de que estes indivíduos estariam equipados com novas formas de aprender que incluiriam fluência em diversas mídias, capacidade de absorver informações de diversas fontes e sintetizar o conhecimento através de uma perspectiva personalizada, habilidade de construir saberes coletivamente ao invés de confiar em uma única fonte privilegiada4. Ao contrário dos imigrantes digitais, esta nova geração sente-se confortável ao realizar com agilidade uma variedade de tarefas simultaneamente, devido à maior capacidade de processamento paralelo de informações que a exposição precoce à tecnologia permitiu seus cérebros desenvolver.
 Com a finalidade de atender à demanda deste público radicalmente diferenciado, a educação superior se veria forçada adaptar-se sob pena da nova geração levar seus talentos para outras iniciativas. E com base mais neste argumento que em evidências empíricas, um processo de digitalização da educação superior teve início ao final dos anos noventas, quando os nativos digitais começavam a chegar ao ensino universitário, sobretudo nas universidades de referência em tecnologia. A seguir, a digitalização se espalhou gradualmente para níveis mais básicos atingindo mesmo os anos pré-escolares da educação, ao ponto de nenhum tour por uma escola ou universidade ser completo sem uma visita à sala de computadores e à sala de projeção.
        Algumas iniciativas são dignas de nota, como instituições educacionais as quais esforçam-se por abolir o uso do papel, do livro a cadernos, a favor de tablets e outros dispositivos eletrônicos. Bibliotecas sem livros físicos5, provas em formulários eletrônicos, aulas que podem ser assistidas via web stream para conveniência do estudante e arquivadas para futura referência6,  ou em níveis mais fundamentais e voltado também à redução do gap digital, a iniciativa do programa One Laptop per Child (OLPC)5.
 Os estudos conduzidos entre 2008 e 2010, comparando os grupos que referimos por nativos e imigrantes digitais, no entanto, foram incapazes de encontrar as características distintivas. Ao contrário, serviu para desconstituir a relevância destes termos: o uso da internet pelos nativos digitais foi principalmente voltado a acessar conteúdos e comunicação, enquanto que a produção de blogs, vídeos, mundos virtuais, foi notavelmente baixa.  Isto levou os autores da pesquisa a afirmar que “a ideia de que a geração net é mais inclinada a participar [na web] pode estar um tanto exagerada”7.
        Ao comparar o uso da tecnologia, verificou-se que embora seja crescente a incorporação de equipamentos (hardware) no cotidiano, e mesmo a maior familiaridade das novas gerações com as tecnologias (se comparado a seus professores, por exemplo), o uso que se faz destes permanece, em geral, em um nível superficial. Sem a orientação do professor, de forma a conduzir o uso de certa tecnologia como instrumento de exploração de um problema e subsequente aquisição de saber, o estudante não manifesta iniciativa para transferir seu know-how tecnológico ao ambiente educacional4. Aparentemente não consegue conectar o espaço social,  o aprendizado informal e formal por si mesmo.
 Outro aspecto levantado é a fissura social, pois as habilidades no uso dos recursos digitais variam grandemente função da classe social de onde o indivíduo é originário, onde menor status socioeconômico se traduz por menor fluência  no uso dos recursos da web8.
2. Planejamento pedagógico
 O segundo ponto, refere-se ao aspecto pedagógico da inserção de tecnologia no ambiente educacional. Estudos comparando classes com total ausência de recursos tecnológicos a outras com algum aprimoramento mostram que o uso de alguma tecnologia é benéfico para o desempenho dos alunos. Porém o uso excessivo de tecnologias mostra que pode limitar o aprendizado dos alunos9. Isto decorre pelo excesso de informações não fundamentais ao conteúdo concorrem pela atenção do estudante. Scheiter et al.10 citam o exemplo comparativo de uma classe universitária que assistiu uma visualização esquemática bastante realística do processo de mitose celular. O grupo de controle assistiu apenas a desenhos da sequencia de processos, que focavam nos aspectos centrais apenas. O desempenho inferior do grupo com maiores recursos tecnológicos foi atribuído à maior demanda cognitiva pelas informações irrelevantes que distraiam o aprendiz, tais como partículas flutuando em torno do núcleo celular, na visualização sob microscópio.
3. Uso da tecnologia
 Por fim, o uso que se faz do recurso tecnológico é um fator importante a ser revisado. Partindo da posição de Clark11, o uso de uma tecnologia sofisticada, ao menos nos níveis superiores de educação, pode ser efetivamente emulado por uma tecnologia mais simples de forma efetiva. Assim, quando apenas é um meio para se transmitir informações, tal como apresentações, não foi encontrado vantagem em relação aos meios de baixa tecnologia. Em contrapartida, nem desvantagem: estudos já nos anos cinquentas demonstram que não há prejuízo no aprendizado através de aulas televisionadas, comparado com o grupo controle presencial12. Isto implica, basicamente, que o papel da tecnologia na educação é secundário, quando muito ou, em outras palavras, a presença de tecnologia per se, não deve aprimorar ou prejudicar o aprendizado.
 Cabe aqui refletir no inexistente impacto educacional do programa OLPC para o aprendizado dos conteúdos de matemática e linguagem5. Tecnologias que apenas atuam na entrega de conteúdos não fazem, por si mesmas, estes conteúdos mais fáceis ou agradáveis de serem absorvidos pelos estudantes. O amparo da tecnologia deve estar no aspecto pedagógico para se obter resultados relevantes, tais como ferramentas de suporte cognitivo, ao invés de se tentar substituir os meios ditos tradicionais por réplicas digitais. Porém esta tarefa se mostra desafiante, desde que requer não uma mera tradução dos conteúdos das disciplinas, mas  antes uma reelaboração dos currículos em torno das tecnologias emergentes. Para tanto, depende-se não apenas de um corpo de professores e staff habilitado no uso pedagógico da tecnologia mas seria necessário também treinar o ingressante no ensino superior e de pós-graduação no uso destas ferramentas.
        As habilidades tecnológicas que se atribuíra a nativos digitais estão longe de serem encontradas nos alunos, o que não impede que certos aspectos desejados daquelas habilidades sejam motivadas através da educação superior. A aprendizagem por meio da tecnologia é um tema difícil de se abordar de forma frutífera, pois seus resultados favoráveis são, no máximo, escassos, anedóticos ou de convicção. Mas a tecnologia é ubíqua e, eventualmente, deve se tornar transparente no processo educacional. Significativo é desenvolver competências cognitivas no estudante que sejam transferíveis através de diversos âmbitos de suas atividades de aprendizagem.
* Termo utilizado na educação superior que resume as grandes áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (Science, Technology, Engineering and Mathematics).
1PRENSKY, M. (2001). Digital natives, digital immigrants: do they really think differently? On the Horizon, 9(6), 1–6.
2PALFREY, J., & GASSER, U. (2008). Born digital: Understanding the first generation of digital natives. New York: Basic Books.
3OBLINGER, D., & OBLINGER, J. (2005). Is it age or IT: first steps towards understanding the net generation. In  Educating the Net Generation (pp. 2.1–2.20). Boulder, CO: EDUCAUSE. Acessado em 13/08/2016. Disponível em http://bit.ly/1DpykLx.
4LITTLEJOHN, A, MARGARYAN, A and VOJT,G. (2010) “Exploring Students‟ use of ICT and Expectations of Learning Methods” Electronic Journal of e-Learning Volume 8 Issue 1 2009, (pp13 - 20), disponível online em www.ejel.org
5SEVERIN, E., SANTIAGO, A., CRISTIA, J., IBARRARÁN, P., THOMPSON, J. and CUETO, S., 2011. Evaluation of the “Una Laptop por Niño” program in Peru: Results and perspectives. IDB Education Briefly Noted.
6BERKLEY, CS 61A: The Structure and Interpretation of Computer Programs 2016. Disponível em http://cs61a.org/, acessado em 13/08/2016.
7JONES, C., & CROSS, S. (2009). Is there a new generation coming to university?.  In dreams begins responsibility: Choice, evidence and change, September 8–10, 2009, Manchester, UK.
8HARGITTAI, E., 2010. Digital na (t) ives? Variation in internet skills and uses among members of the “net generation”. Sociological inquiry, 80(1), pp.92-113.
9SCHMID, R.F., et al., 2014. The effects of technology use in postsecondary education: A meta-analysis of classroom applications.Computers & Education, 72, pp.271-291.
10SCHEITER, K., et al. (2009). The effects of realism in learning with dynamic visualizations. Learning and Instruction, 19, 481–494.
11CLARK, R. E. (1983). Reconsidering research on learning from media. Review of Educational Research, 53, 445–449.
12GREENHILL, L.P. and CARPENTER, C.R., 1953. Some Characteristics of Effective Teaching Films. Health Education Journal, 11(4), pp.188-195.

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