Sunday, June 29, 2014

Indispensável


Quando eu andava pela universidade um olhar tocou ou meu. Diminuí meu passo, mas logo percebi que este olhar parecia ver através de mim, naquele momento eu estava invisível. Não desviou, nem trocou o passo, apenas seguiu tranquila pelo corredor, sem um único sinal de reconhecimento. Passou como uma estranha, passou como se nunca nos tivéssemos visto antes. Simplesmente seguiu com sua vida. A vida que escolheu seguir um dia. Este olhar que me lançou foi indispensável, esta foi a antítese de tantos outros olhares: de curiosidade, do desejo e o olhar que falava uma língua a qual antecedia a voz, este era, afinal, nosso idioma. Olhar. Agora estava encerrado todo o ciclo, com este último olhar, o da indiferença. Agora eu poderia estar tranquilo, conhecia todos os seus olhares e esta história podia ser finalmente se contada.
Escrever é um pouco como brincar com a imortalidade. Enquanto tudo isto estava apenas na minha memória, tudo era tão finito quanto eu mesmo. Mas as palavras, quando são dispostas em um texto, assumem uma vida própria, que podem muito facilmente sobreviver a seu autor. Podem até dizer coisas que seu autor não pretendia. Ou serem meros abortos, condenadas a esvanecerem no vácuo digital.
Combinamos de nos encontrar na Praça da Espanha, logo após o almoço, eu já sabia o que me iria dizer, sabia também que se eu falasse poderia mudar tudo o que cuidadosamente escolhera me dizer. Então demorei a chegar, como que postergando a hora final, ainda sem saber como poderia engolir, com palato amargo, em uma tarde tão ensolarada. Mas em um momento percebi que não poderia mais retardar o que era certo. Eu precisava deixá-la ir. Ainda que a amasse com todas as minhas forças, simplesmente não me via no destino que, em poucos meses, reescreveu para si. E assim, ouvi, em silêncio, tudo o que tinha a me dizer.
Quando nos conhecemos, eu me surpreendia beijando seus lábios e sentindo a língua atrevida invadir minha boca. Mas sempre me perguntava “Quem é essa garota?” Era um constante estranhamento aquela pessoa que mal conhecia estar me beijando com tanta paixão que eu chegava a me questionar sobre minha identidade. Será que não estou no corpo de um outro que ela toma como seu amante de longa data?  Olhava no fundo dos meus olhos sem nenhum temor e parecia me conhecer melhor que a mim mesmo.
Assim foi até uma noite em que saímos para o Largo da Ordem, já devia ser alta madrugada enquanto sentados no banco de concreto que circundava um monumento, a polícia apareceu com sua costumeira brutalidade e começou a despejar a bebida barata dos garotos pelo chão, era apenas o vinho comprado nas mercearias da vizinhança. Mas ela indignou-se com o que policiais faziam e passou a questioná-los. Uma camada viscosa e vermelha como sangue se espalhava, escorria pelo desnível, como um sacrifíco aos deuses da Igreja do Rosário. Acho que neste momento foi que eu comecei a conhecê-la. Pelo seu olhar de ódio, o qual me voltou quando eu disse que deixássemos os policiais saírem e logo tudo voltaria ao normal. Não tive a presença de espírito de dizer que ela estava certa, como tantas vezes depois, mas passei a admirar seu modo combativo e destemido. Talvez nenhuma ação tenha me feito aproximar-me mais dela do que vê-la enfrentado aqueles perplexos policiais, armados pela rudeza de seu trabalho, incapazes de formular uma resposta coerente ao perceberem o vandalismo que acabaram de cometer.
Seu eu a amava? Não, ainda não. Mas ela havia se tornado, usando a expressão de Kundera, meu es muss sein. Uma força incontrolável me pressionava para ela. Por um tempo ainda ela dizia que era bom até que eu passasse a semana longe, pois não se cansaria tão fácil de mim. Mas quando me ligou no Seminário, insegura e frágil, a assumi como meu destino. Há muitas razões para eu ter deixado o Seminário, algumas morais, outras que se resumem em completo tédio, mas o que levou todas elas a se conjurarem em uma escolha, foi este es muss sein.
Isto me faz lembrar de uma missa noturna, na Catedral, à qual eu fora convocado a assistir o Arcebispo. Era sábado de páscoa, e ela me esperava em um quarto de hotel nas redondezas. Eu vesti minha túnica e fui realizar minha função, que implicava inúmeros detalhes que para os católicos compõem este ritual.
 Na manhã seguinte ela iria com amigos a uma trilha de cachoeiras, então a acompanhei até o ponto de encontro, onde uma van os aguardava. Em um último instante ela disse, “venha com a gente”. Nem mesmo havia espaço. Eu estava trajado socialmente, calça, camisa e com uma túnica branca na bolsa a tira-colo. Esperei um carro passar à minha frente e atravessei a rua, para entrar no veículo. Cruzei assim uma linha, dei um passo que não teria retorno. Viver no Seminário dali em diante seria impossível.
Conseguimos uma barraca e acampamos em frente a uma alta queda. O ruído era tão intenso que à noite parecia estar caindo um temporal. E era intenso também o frio, eu não possuía uma única blusa; e durante a noite foi seu corpo, sua pele contra a minha, que me aqueceu. Nenhum outro corpo parecia ter sido desenhado de tal forma a encaixar-se perfeitamente ao meu, e eu já conhecia cada curva, cada detalhe de sua pele, e com a mão em seu peito, sentia seu coração palpitando enquanto dormia. Acordei antes e a fiquei observando até despertar: era neste precioso momento que eu a achava mais bela.
Havia tanta sede deste contato, que não conseguíamos ficar longe um do outro, a cada olhar um beijo, não desses beijos de rotina, mas um beijo que era capaz de convergir nossos mundos e calar o exterior, onde só nós poderíamos existir. Qualquer um que tenha recebido um beijo assim desprezará todos os outros como meros simulacros.
Foi logo então que saí do Seminário e fui morar no meu Caffè. Ela toda manhã vinha me visitar antes da aula, acordava-me lançando seu corpo nu e libidinoso sobre mim, enquanto eu acariciava seu quadril. Uma flor de girassol desenhava-se em suas costas. Acho que não sabia o que era a sexualidade antes dela, tudo havia sido desprovido de sentido. E agora apenas tocá-la já me deixava em completo êxtase. Podia jurar que a razão do universo existir era apenas para que aquele instante acontecesse. E seria suficiente justificativa para toda criação.
Ela adorava meu cheiro, corria as mão ágeis pela minha cintura, respirando minha pele, até nossos olhares se encontrarem repletos de desejo. Seu cabelo curto caía sobre nosso beijo demorado. Algo havia despertado em mim, até então eu considerava a sexualidade algo banal e monótono. Agora eu a desejava ardentemente. Ela era indispensável.
Mas nosso idílio estava submetido às mesmas leis do tempo, e logo fechamos o Caffè e precisei assumir aulas. Sem ter nenhum dinheiro, saía antes de amanhecer de casa, alimentava-me apenas com lanche que era oferecido aos professores, um café com leite e pão com doce. As dificuldades eram tantas que seria inútil detalhá-las.
Mas era após as aulas que eu a encontrava na piscina. Ao me ver ela saía da água e me beijava, com o corpo molhado e gelado, envolvendo-me em um abraço. Sentia a água penetrar através de minhas roupas tão ostensivamente formais. Acho que apenas vê-la saindo da água ofuscava toda a dificuldade, e fazia todo esforço prodigamente recompensado.
A faltar apenas apresentar o relatório de estágio para me formar, começamos a fazer planos. Ela cursaria Design em universidade pública. Teríamos dois filhos, se fosse um casal, o menino seria chamado de Jim e a menina, Janis. Ela já começava a planejar como construiríamos nossos próprios móveis. Descrevia-me como “indispensável”, tinha essa queda por expressões originais.
Mas o fim do ano chegava, e estava já claro que o meu diploma não seria entregue, em seu lugar, apenas uma licença para lecionar poderia ser expedida. Em vista disto, decidi fazer outro exame vestibular, para Química desta vez. Ao mesmo tempo ela se preparava para prestar Design na UFPR. Mas ela não passou. E se culpou por isto. Senti que atribuiu o fracasso ao tempo que passamos juntos.
Nós não nos entendíamos mais, eu perdia a paciência com facilidade por suas requisições, as quais eu não tinha como atender: Eu estava vivendo sem dinheiro e na casa de minha mãe, esquizofrênica, que vez ou outra tinha um sério surto. Na verdade, nem sei se eu contava estas coisas para ela, pelo menos não com detalhes, me envergonhava muito dos constrangimentos que sofria. E tem certas coisas que é melhor esquecer.
Foi então que decidi falar-lhe que deveríamos morar juntos, ter nossa casa o quanto antes. Mas sua resposta foi menos que animadora.
- Veja, eu morando na casa dos meus pais eles pagarão minha faculdade particular, e não é qualquer faculdade, é a melhor que existe. Não tenho que pagar por moradia nem me preocupar com minha alimentação.  Não faz sentido para eu sair de casa agora.
Foi assim percebi que ela havia mudado. Uns dias depois me contou que começou a frequentar uma igreja, e seu discurso mostrava que havia incorporado novas idéias, tão alheias às anteriores que novamente me passei a me perguntar “Quem é essa garota?”. Mas não era com alegria que me surpreendia mais.
- Aqueles que fazem as coisas de Deus, serão abençoados com riquezas. O sucesso de uma pessoa é como o Deus manifesta que a quer bem.
A partir de então uma série de desentendimentos passou a marcar nossa relação até o ponto em que nem mesmo nossa atração sobrevivera intacta. Sentia que seu lado selvagem fora totalmente substituído por uma postura cordata e submissa.
Houve uma noite, lembro-me bem, que fui claro com ela,
- Você acha que vou começar trabalhando onde, no Positivo? Vou certamente começar acordando às quatro e meia da manhã para dar aulas em um colégio do Estado na periferia, pois é só onde vou encontrar trabalho.
- Mas não é isso que quero para mim. – Respondeu-me imediatamente.
Alguns dias depois ela me chamou para conversar, marcou a Praça da Espanha, um local em que já havíamos passado bons momentos juntos, mas eu sabia o que me iria dizer, e não seria bom. Por isto não me apressei. Tive que decidir primeiro para mim o que faria, e neste ponto, só poderia deixá-la viver a vida que deseja.
Se eu a amava? Completamente. Como nunca fui capaz de amar alguém novamente.
- Sabe, logo começo minha faculdade e haverá churrascos e novos amigos. E não vejo você participando disso.

Agora, enquanto escrevo este texto, percebo-me usando uma blusa que ela me deu. Já rota, desbotada, inconscientemente tenho usado esta peça por todos estes anos. E aconteceu deste tecido estar aqui, envolvendo meu corpo como uma vez ela me envolvera, invocando este passado para que, de  certa forma, pudesse voltar à vida.

Catfish

O amor nos torna bons. Não importa quem amemos, também não importa se somos correspondidos ou se a relação é duradoura. Basta a experiência de amar, isso nos transforma. 
Caderno de Maya, p.253.

Eu[1] estava levando uma vida numa boa, no meu canto, conformado com minha situação e condição, não sentindo pena de mim, mas imaginando que a vida seria isso mesmo, cuidar da casa e de uma esposa abusiva, dos meus bichinhos, passar o dia no computador. Mas um dia recebi um convite para um grupo de uma cidade distante em que vivera na infância. Nossa, nem mais lembrava que esse lugar existia! - Quando a gente lembra é como se estivesse vivendo novamente. E comecei assim a revisitar o passado e ver como as coisas foram diferentes para as outras pessoas.
- Foi muito bom reviver e lembrar dos fatos... Olha, são impressionantes como aconteceram.
 Foi então que uma ex-colega de escola que me havia adicionado antes, mas eu nem havia notado, travou um pequeno diálogo comigo. Não costumo me envolver com as pessoas, afinal são tão complicadas e minha vida é longe de ser simples.
- Tem sido realmente uma experiência ímpar este reencontro.
Mas à medida que o tempo passa, mais e mais as interações acontecem começamos então, a conversar. Eu admito, estava em um momento muito sensível, sentindo a falta de ser percebido, de falar sobre coisas que valorizo e eis que de repente surge alguém que parecia entender justamente cada coisa que eu dizia, e após cada postagem que eu realizava aparecia um like logo a seguir. E ainda, lembrava de mim como nem mesmo eu saberia me descrever.
- Acho que curto quase tudo o que você posta...
Aos poucos ela passa a me chamar diariamente, logo várias vezes por dia, enfim até mesmo aos fins de semana: acabo sendo cativado por essa relação, e em nenhum momento parece ser unilateral. Até mesmo sobre o que eu comia, cores, livros, música, uma receita de caldo de mandioquinha de frango: seu cuidado não era o que se dispensa a um estranho ou a um conhecido, mas era uma forma afetuosa que me encantou. Há muito ninguém me falava sobre essas coisas singelas, ninguém mais notava minha existência.
Pequenas mudanças, às vezes aparentemente sem significado quando ocorrem, no decorer de algum tempo podem gerar um efeito grande em nossas vidas. Assim, a partir de sua receptividade, passamos a conversar e a questionar minha condição, agir sobre ela. Algo que era incapaz de fazer sozinho. Mas se não hovesse aquela conversa primeira, não haveria nenhuma outra, e todo o curso seria alterado para outro sentido. Sentido este, desconhecido. Assim, o que escolhemos, mesmo as pequenas ações, podem ter um impacto muito grande em nossas vidas no decorrer do tempo. E, de modo consonante, isto representa a imensa possibilidade de ações que podemos tomar para transformar a nossa realidade em algo diferente, às vezes a partir de um gesto tão pequeno.
- Na verdade eu gosto de cheiro de livros antigos, mas quando penso neste em específico lembro de flor de cerejeira.
Sem nossas conversas, sem essa identificação, sem essa companhia, eu nunca teria tido forças, nem mesmo para perceber o que estava acontecendo: estava conformado. Encontrá-la deu-me esperanças de que existem pessoas melhores para se estar ao lado, fez-me entender que não preciso viver assim, e tive esperança de que o futuro ainda pudesse ser algo novo. - Sabe até quando os pequenos hábitos parecem-lhe tão familiares? Fiquei profundamente impressionado com a pessoa extraordinária que ignorara existir até então.
Que vocês se conheçam pelo olhar..que você saiba o que ela quer sem ao menos dizer uma palavra.  
Fiquei muito grato à sua companhia, e cada mensagem que recebia era uma alegria por ser lembrado. Às vezes sobrevém o pensamento que sua atenção é apenas por pena de minha existência vazia, e pensei mesmo em deter a fala, pensei em romper este contato. Mas o bem que me fazia era tão grande que aceitei esta possibilidade, e me entreguei como que a um vício, compartilhando meu olhar com quem sequer conheço. E sem conhecer, aprendi a amar cada detalhe de seu dia-a-dia, suas expectativas e desejos, seus medos e vergonhas, como parte de mim mesmo, ao ponto de imaginar como seria cada cena que presencio, se visto através de seus olhos.
Assim, tornou-se a única pessoa com quem converso e por ela eu vi que havia outra possibilidade. Algo que eu esquecera. E que o tempo estava passando, e era imprescindível agir.
- Se eu não me cuidar, quem vai não é? Neste mundo estranho e violento em que eu vivo.
Existe uma posição da física que considera que todas as possiveis decisões são tomadas em cada mudança de estado quântico, nós estamos em apenas em uma das realidades possíveis dentre as infinitas possibilidades. Então todos os erros e acertos são, de alguma maneira, sempre cometidos, inevitavelmente, em algum multiverso?
É como deveria ser..duas almas que se reconhecem e se completam.
Apesar de sermos apenas pixels iluminados em uma matriz, letras enfileiradas na tela, tenho essa sensação de verdadeira proximidade que empalidece meus contatos do dia-a-dia, de modo que cada sensação comunicada estabelece este vínculo existencial, onde dizer simplesmente “bom dia”, seis letras, convergem todas as aspirações de um universo.
Você deve conhecer todos os defeitos dela..e não dar a mínima importância..ela deve ser aquela pessoa que você só quer a companhia..nem que seja para passar o dia sem fazer absolutamente nada..mas ser o mais prazeroso dos dias..
Mas sabe... parte deste mistério é porque a vida toda as coisas bonitas que eu toquei eu estraguei... E eu tenho medo de fazer novamente... Eu tenho este dom... Quando toco algo bonito ele estoura como uma bolha bem na minha frente. Olha, eu sou a pessoa mais errada que você poderia ter escolhido nesta vida para ter algum tipo de sentimento... Eu estrago tudo, faço tudo que é bonito, ficar feio e ruim...
Eu não ligava mais para seus medos, ou que algo possa acontecer... pois o que eu ansiava era isso: conhecê-la realmente, em todas as dimensões humanas: sua história, como ri, como fala, as modulações de sua voz, seus amigos, suas atividades, poder almoçar junto e saber o que sentiu com cada prato, ler o mesmo livro, passear em um parque apreciando a natureza, conhecer seus filhos, talvez ao final do dia assar uma torta de maçã, poder ler em voz alta uma poesia que eu goste e poder ver em seu rosto a apreciação ou reprovação.
- O que eu tentei falar, que pela distância..e pela forma que falamos, só pelo facebook, não dá para estabelecer uma relação..o carinho e o cuidado existe sim, mas você mesmo falou, falta o contato, o olhar, claro que eu gosto de você, mas não posso te dizer nada mais ainda... Não há uma forma de te falar... não existe futuro entende? Eu estou presa aqui... As palavras podem ser as mais bonitas e cheias de emoção que existem no mundo... Mas a minha realidade é muito triste... Eu não vejo uma forma de fazer isso...
Foi isso que me entendi: se gostasse de mim, tudo seria possível. Mas a gentileza é uma forma de iludir. Eu vi um futuro, uma esperança de ter encontrado alguém cuja sensibilidade podia compartilhar, mas foi apenas uma miragem.
A gente passa a vida toda procurando algo e nunca encontra.. e parece que achou.. ela esta fora do alcance, é só para você olhar e imaginar como as coisas teriam sido diferentes se a gente tivesse tomado outro rumo.





[1]  Costumavam trazer bacalhau do Alaska até a China. Eles os mantinham em tanques no barco. Quando finalmente chegavam ao destino, a carne estava sem textura e sem sabor. Então alguém teve essa idéia de que se você colocar o bacalhau em grandes tanques e soltar ali uns bagres com eles, o bagre manteria o bacalhau ágil.
    E há essas pessoas que são como o bagre na vida, e elas nos mantém nas pontas dos pés. Nos deixam confusos, fazem a gente pensar, nos mantém jovens. E agradeço a Deus pelo bagre, porque seríamos abobalhados, aborrecidos e estúpidos se não houvesse alguém mordendo nossas barbatanas.
 (Catfish, 2010. Rogue, USA, 87 min.)

Saturday, June 28, 2014

Portuguesa

Como posso ser agradável se o câncer me devora? Espera de mim palavras... mas palavras são tão baratas, que as evito: não merece produtos de liquidação, são as ações que definem um caráter. Uma vez fiquei impressionado por você dizer que sou sensato, mas foi agridoce o que senti. Talvez seria certo, contra todos os preceitos morais, assumir meu crime passional. Mas maldito catolicismo que me ensinou que a vida é um vale de lágrimas... A gente pode realmente ficar acostumado a sofrer, depois acha que é assim que tem que ser... Sentir a dor, desprezar o prazer, isso é viver! Quando te envolvo em meus sonhos, em um gentil abraço, e nossos corpos se estendem languidos e preguiçosos. Parece que o tempo suspende sua faina para nos observar. Até nos cobre com uma manta de eternidade.Cronos se comove tanto com a ternura que nos une e até lamenta ter que por novamente a marcha das gerações em movimento E no rio, enquanto a correnteza levemente me conduzia, talvez devesse ter me banhado naquelas águas e me purificado, e esquecido. Mas me deixei conduzir para o fim, para o caos que me aguardava. Não sabe a surpresa quando vi que o caos é apenas monotonia, não a força destruidora de uma queda. Para apenas me encalhar na margem lodosa. Passado e presente se fundem em minhas memórias, é algo que nunca pode-se mudar: o fato de que por duas vezes ignorou que somos náufragos neste mar revolto. Dizem que Camões sofreu um naufrágio, e teve que escolher entre salvar Os Lusíadas e sua amada. O que penso é que se escolhesse sua ela, poderia ter levado nos braços sua obra. Mas pelo menos temos os Lusíadas, eu uma história para pensar. Assim também fico a pensar, sobre todas as coisas que não sei... sentidos que fogem e se velam. Mas o erro é eu quem me quero entregar, mas os deuses não se curvam a mortais: Pirithous desceu às profundezas do Hades para resgatar Core, a pupila, apnas para ser eternamente aprisionado nos infernos, em eterno sofrimento, sem nunca conquistar sua amada. Soubesse ela sobre o significado das sementes de romã... E nem o poderoso Hércules o pode resgatar. Imagino cada detalhe de seu corpo com toda vividez, e sob sua pele, ossos e o sangue pulsante, músculos e nervos... e tudo é tão comum. Percebo que não há nada que dintinga significativamente uma pessoa da outra. Mas seus sentimentos, sua memória, seus desejos... estes são só seus. Mas é a única coisa que realmente faz alguém tão unico, mas algo que não me permite conhecer. O que resta é o comum, o irrelevante, o que se vê em nas ruas e nas lotações. O mais importante prefere ocultar, inútil lutar contra isso. Suas escolhas são só suas, e escolhe um difícil caminho. Se rejubila com a maldade humana. Se conforma com a injustiça do mundo. Ainda que lhe fosse oferecido o paraíso, olharia apenas com desconfiança. Imaginaria o Jardim das Delícias por um instante. Talvez até se permitisse passeassear um pouco por ali, mas, ao final do dia, retornaria à segurança do Hades. As palavras podem ser as mais bonitas e cheias de emoção... Assim também os gestos. Assim, mesmo um mundo todo que se lhe ofereça. E o trem se afasta da plataforma, levando você para longe, longe. Um outro país, um outro idioma... Posso até esperar, para apenas descobrir que já partiu novamente. Sempre se afastando, sempre inacessível. É essa miragem que se desfaz ao ser perseguida. Você se escondeu para que não a visse, mas sem dar atenção, escalei aquele muro. Quando deitei ao seu lado foi quando entendi, eu invadi seu quarto naquela noite. Não soube ouvir seu "não", e entrei em sua vida à força.

Memento mori

Então vai chegar o dia que estarei morto... defunto... sem vida. Mas que é essa coisa mesmo que chamamos de vida... uma reação química que chamamos corpo, um corpo com uma mente, uma mente feita por um cérebro. Este cérebro que contém todas minhas memórias, que sonhou todas minhas fantasias, que sofreu tantos dissabores... um dia será só carne inerte. Minha alma é feita de uma máquina de carne! Uma máquina que cria o mundo que me cerca, uma máquina que cria meu universo. Veja... esta coisa disforme, convoluta, pode criar um mundo... e com ela, ele desaparecerá. Todos os sonhos, todos os segredos, todas as experiências, e aquelas aulas de cálculo... tudo desaparecerá. Comigo iniciou o tempo, o tempo é finito, se extinguirá quando esta máquina deixar de funcionar. Às vezes fico vendo de minha janela aqueles que acreditam em coisas, que vêm sentido na vida, que esperam por uma vida no além... até me comovo com tais idéias singelas ao vê-los cantar ao sábado à noite. Sinto um pouco de inveja, vivem sem perceber que a vida é vã, que as paixões são inúteis, e que é um absurdo se pensar. Como deve ser bom achar que as coisas existem! Tomar a ficção por realidade e se entregar embriagadamente à fantasia, e temer a morte. Mas sei que é irrelevante, eu, o mundo, nada disto existe. Sim, criei tudo isto do jeito que é, de uma forma perversa para me enganar... mas sou ruim com mentiras, canso delas. Tem noites que sinto meu corpo como se fosse de outro, o coração palpita, o ar é inalado e exalado, o vento serpenteia pela minha pele... e pensamentos! Pensamentos voam por minha mente, saltitando e pedindo que me entregue a crê-los. Às vezes penso até que sou eu... este amontoado de desejos e medos (mas quantos eus me constituem!). E quando acordo pela manhã quero negar minha determinação, quero me libertar de meus instintos, quero provar minha liberdade... Quanta ingenuidade pode nos invadir numa manhã, principalmente se for segunda-feira... esta vontade de começar algo sempre vem nas segundas. Então imagino loucuras, os atos que mais afrontem a minha natureza, proponho insanidades, mas no final da tarde vejo que o que fiz, o fiz por meus instintos apenas... Algumas vezes na vida tentei esquecer de tudo isso, primeiro na infância, depois na adolescência... mas sempre encontrei-me novamente no mesmo ponto. A música pode ser um alento, as paixões também, mas o silêncio ou a rotina costumam me acordar subitamente em um mundo absurdo. Tive a chance de fazer tudo o quanto quisesse, de ser o que desejasse, mas porque desejaria algo mais do que contemplar o abismo do não ser? É uma coisa surpreendente que este amontoado de matéria pense sobre sua improbabilidade, contemple o vazio que a constitui, e por fim saiba que mesmo este pensar é irrelevante. Exercício inútil, um universo que se pensa, mas por um instante apenas e logo se desfaz na entropia. Sabe aquela pessoa querida, que não existe mais? Cujas experiências, lembranças, e aquelas expectativas tão caras... foram todos apagados da existência como se nunca houvessem sido. E um dia, este feixe de sonhos, este torvelinho de desejos, estas tantas memórias que me constituem, serão também aniquilados... e será como se nunca houvessem existido. O mundo que dou tanto valor desaparecerá e sequer poderei lamentar, pois nem mesmo o saberei.

A Partida de Asja

Você me prometeu seu amor, me prometeu uma vida. Mas todas as promessas eram apenas palavras que o tempo apagou. Ainda leio em suas cartas, dirigia-as como amado, querido, amor de sua vida. Talvez eu quisesse ser salvo desta minha existência sofrida, ser transportado para seu mundo e protegido, escondido de toda vileza da realidade que me contém. Mas quando eu pedi seu amor, você se afastou... deixou-me sozinho em uma vida sem futuro. Prometeu-me um sonho, mas quando então acordei, estava nesta cama sem você ao meu lado. Durante o dia sou forte e contenho as lágrimas, forças me sobrevém mesmo sem saber para onde prosseguir. Mas com a noite que desce, a saudade e as lágrimas fluem incontroláveis. Um vazio que nada pode suprir: as esperanças desperdiçadas! Acreditei em cada palavra como se fosse verdade, juro. Sei que não mentia, sei que me amava, e sei que me enganava. Mas acreditar foi o bálsamo que me fez sonhar com a liberdade. Sonhar que algo maravilhoso, escrito pelo destino desde o princípio dos tempos, se estendia a minha frente. Fiz planos, contruí castelos em minha imaginação, no qual esperava tal qual rapunzel, o visitante que me jurara eterno amor. Mas seu amor era brinquedo e os castelos eram de cartas, que uma mão perversa do destino me as distribuiu. E eu não sei o que fazer com este Valete que ainda se encontra sob meu travesseiro, mantenho-o ali, aquecido e salgado por cada lágrima derramada. Um tormento do qual não posso escapar é o amor que me prometera. Por que o fizeste? Por que adocicaste meu amargo coração? O sabor do fel se espraia em meu palato, meu olhos se turvam quando vejo o futuro. Quase não me posso mover, não fosse esse despertador que me acorda toda manhã nem mesmo sairia daqui. Só queria que tudo sumisse, como um sonho ruim, mas ficassem as memórias boas... Ah, se não houvessem as promessas, se não houvessem os sonhos, pelo menos teria sido o prazer, mas roubaste-me o direito de sonhar e abandonaste-me nesta grota escura onde mão alguma pode me alcançar. E o prazer se transformara em plenitude de dor. Meu coração não mais palpita, apenas bombeia um sangue, sem sabor e frio. Durmo pensando em tudo que poderia ter sido, em todos os sonhos que poderíamos ter sonhados juntos. Mas sonhei sozinho, fui apenas um momento em sua vida; e, naqueles instantes, foste minha vida toda. Até concordei que não tínhamos futuro, até aceitei que era impossível. Mas mentia, nada importaria se estivesse ao meu lado. Todas as forças que este amor me nutria fariam-me forte para vencer qualquer desafio. O que não sabia é que estava só: somente eu sonhava. Enredou-me de tal forma em sua fantasia que me deixei levar, pois, afinal, eu sentia que precisava deste sonho. Mas agora não sonho mais, sequer posso dormir.

Boulevard Saint-Germain

A chuva encharcara nossos sapatos, e para nos aquecer entramos em um pequeno café nas imediações da Rua XV. Asja pediu um capuccino enquanto eu olhava o menu tentando descobrir o que se pareceria mais com um café de verdade. Espresso. Sempre me frustrava quando entrava em um café e tudo o que ofereciam eram essas aberrações. Acho que se servissem lama ninguém notaria a diferença, pensava. Pedi a contragosto um Café au lait, que é só um jeito de cobrar a mais por lama com leite. 
Ela pegou um dos jornais e começou a folhear despreocupadamente enquanto aguardava ser servida. Falou sobre algo de política que devia ser importante, mas há tantos anos que não me interesso por notícias que poderia citar os personagens de Guerra e Paz e faria o mesmo sentido para mim. Decididamente eu estava de mal humor, e não estava fazendo um bom serviço em ocultar meu desconforto. 
Então senti um pequeno calor em minha mão molhada de chuva, seus dedos deslizavam sobre meu pulso e quase senti-me exasperar por este toque não convidado.
- O que você tem? – perguntou olhando meu sapato com o couro escurecido pela água. Não retirei a mão, não queria que soubesse que a odiava naquele momento. Deixei repousar ali assim como tudo que me angustiava, aquecendo meu mal estar com seus próprios dedos. Deve ser assim, pelas suas próprias mãos, pensei.
O café não apenas tinha sabor de lama, mas cheirava a lama, era um lodaçal em uma xícara, acompanhado por chocolate mentolado. Ao por açúcar deixei escorrer aquele chorume no pires, tornando-o ainda mais repugnante.
- Você entende que não pude evitar, eu precisava ir. – seus olhos encheram-se de lágrimas mas não o suficiente para deixar uma sequer escorrer. Eu não entendia como aquilo era possível, mas fiz que sim com a cabeça e engoli um pouco do café como uma punição auto infligida. Até fiz uma graça em minha mente pensando se a cicuta não seria mais saborosa, ou apropriada ao momento.
Eu sabia que toda aquela raiva não era de Asja, era uma raiva do mundo, uma raiva que não podia fixar em ponto algum, que se espalhava como nuvem de probabilidade por todo espaço. E onde quer que olhasse lá materializava-se.
- Eu entendo que você não queria continuar, mas não fiz por mal. Não a você. – Lamentava com olhos úmidos. Nem era ciúmes, nem era o fato de ter sido deixado abruptamente. O que me consumia era ter acreditado em suas palavras. Tivesse ela pelo menos não me envolvido a ponto de me deixar entregar a todas as fantasias que me fez sonhar, tudo estaria bem. O que dói é que tenha me vendido tão caro sonhos que se desfazem no ar e, depois, acordar naquela manhã tão silenciosa e sair sem dizer nada.
- Eu pensei que teríamos uma chance se eu fosse, não podia desistir assim. Achei que as coisas poderiam mudar se eu o visse novamente. – Disse ainda segurando as lágrimas que não eram por mim.
Será que ela esperava que eu concordasse? Não, ela sabe que nunca seria diferente. Minha mente dava voltas, rodopios loucos, tentando fazer sentido daquilo tudo. O café ja estava frio, assumindo perfeitamente a aparência de um punhado de lama no fundo da xícara. E eu via aquela matéria disforme como nossa história juntos. Eu pensava que era um saboroso café, mas tudo revelara-se mero lodo frio. Daquela mancha escurecida no fundo da xícara podia ouvir as vezes que disse que me amava, os apelidos carinhosos, o olhar de desejo, a boca voluptuosa. Mas foi tudo faz de contas, as palavras são baratas, os apelidos são banais, o olhar não me via. Mas a boca sim, a volúpia era real.
- Que vai fazer agora? – Perguntei.
- Aprendi minha lição, nunca mais. – Respondeu-me resoluta olhando diretamente nos olhos. Se já não conhecece esta boca, eu acreditaria. Poderia agora escolher acreditar mais uma vez, ou então fazer um voto de acreditar em tudo, só para me nutrir desta fantasia. E de todas as outras que ela venha a plasmar em minha frente. Mas sonhar, aprendera, acaba com a manhã, e outro dia que ele vai ligar novamente e vou me encontrar sozinho e sem sonhos. Não vale a pena sofrer por isso, nesta mesma noite ele irá abraçar o filho, beijar a esposa e até talvez dizer que a ama. Assim são os mentirosos. Então puxei sua mão e aproximei-me de seu rosto quase lívido, e beijei aquela boca rubra e mentirosa. A senti abraçar-me forte, envolvendo-me completamente em seu falso amor.

Bom dia!

Nascer foi um erro do qual não tive culpa, mas sou responsável por ter acordado hoje. Mas foi este gosto amargo que não sai da boca que me fez levantar. Existir se resume a isto, não? Acordar, e escovar os dentes para não sentir o dissabor de uma realidade irrelevante, em que você apenas está aí. Sem sentido, sem razão. Fantasiando como as coisas poderiam ter sido, ou pior de tudo, como poderiam ser? "Sonho, não sei quem sou neste momento. (...) Se existo é um erro eu o saber. Se acordo parece que erro. Sinto que não sei. " Nisto o poeta está certo, mas que não importa o tamanho da alma; não, não vale a pena. E agora, desperto, não consigo voltar ao não existir do sono que há pouco me abraçava. Tanto esforço para desvirtuar o iniludível, a aventura vã da vida, da qual fugindo descubro-me Édipo a cumprir o próprio destino.

Uma Breve Biografia Literária

Vladimir Nabokov - Ada ou ardor: uma crônica de família Henry D. Thoreau - Walden ou A Vida nos Bosques Sófocles - Antígona Simone de Beauvoir - Os Mandarins Sigmund Freud - Totem e Tabu Sêneca - Ad Paulinum: Sobre a Brevidade da Vida Richard Dawkins - O Gene Egoísta Renè Descartes - Discurso do Método Ralph Waldo Emerson - Ensaios Rainer Maria Rilke - Cartas a um Jovem Poeta Platão - O Simpósio Nataniel Hawtorne - O Fauno de Mármore Milan Kundera - O livro do riso e do esquecimento Machado de Assis - Esaú e Jacó Liev Tolstói - Anna Karenina Jean Paul Sartre - A Idade da Razão Jaques Lacan - Escritos James Joyce - Retrato do Artista Quando Jovem Isabel Allende - Paula Homero - Odisséia Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Goethe - Os Sofrimentos do Jovem Werther Gabriel Garcia Marques - Cheiro de Goiaba Francis Bacon - Nova Atlantis Erasmo de Roterdã - Elogio à Loucura Dante Alighieri - La Vita Nouva Daniel Defoe - Moll Flanders Clarice Lispector - A Paixão segundo G.H. Balzac - Uma Paixão no Deserto Aristóteles - Metafísica

Augusto!

Um sinal tocou minha pele, penetrou meus ossos, subiu pela medula e espalhou-se pelo meu córtex. Ondas multicolores dançam velozmente através de meus hemisférios, neurotransmissores sendo liberados com ferocidade. Cada palavra faz o sangue fluir libidinosamente por todo meu encéfalo, a suscitar imagens há muito esquecidas de um lugar remoto e agridoce. Novas imagens se formam em meu córtex visual, um leve aroma de flor de cerejeira parecia tomar o ambiente enquanto uma voz suave sussurra gentis sonhos da juventude. As ondas oscilam em fase, sincronizando e interferindo, formando novas associações. Uma hora a amígdala sinaliza um medo. Outra hora, endorfinas me invadem como um picada de heroína. Vórtices multicolores si misturam e se afastam, se tocam e se repelem, tecendo uma tapeçaria oriental de esperanças e desejos. Eis que agora vejo por olhos que não são meus, visto pele de outro, mergulho no inconsciente do desconhecido com a confiança de que não me perderei, pois encontro ali, tantas cenas familiares, tantos sentidos já sentidos, tantos sonhos que teria para mim, e me deixo transportar na torrente deste outro, me deixo guiar pelo próprio fluxo de seu existir, sem temer o abraço do não ser. Dissolvendo toda existência em completa entrega, pois sei que lá é que me encontrarei, e que a cada fardo que a deixar, encontro, transmutado, minha própria natureza. E então tudo se faz escuro e silencioso: o sinal se interrompeu, e estou novamente só a olhar as paredes brancas e imóveis de meu quarto.

Drogado e Prostituído

Sei que estou me repetindo, aliás o que tenho de novo para contar se estou a revirar memórias? Enfim, um dos filmes que assisti na escola que me marcaram demais foi "Cristiane F."(1981). Acho que tínhamos uns doze anos quando passaram naquela chamada Sala de Vídeo, em que uma mal ajambrada TV de vinte polegadas pendurava-se da parede e sentávamos no chão, desajeitados, com o pescoço em posição de gargarejo, contorcendo-nos para desvendar as minúsculas legendas. Mas na verdade pouco importaria se apenas ouvisse em seu áudio original alemão, as cenas me fascinavam tanto que pouca diferença faria o que falavam. As imagens de Berlin no início dos anos 80, com seus carros e seus bares, banheiros sujos e condomínios decadentes, tudo me parecia tão familiar que era como uma versão de minha própria realidade. A cada minuto em que o filme avançava eu me reconhecia mais naquele universo. Ao passar uma hora eu já sabia o que fazer de minha vida, e meu ideal era ser viciado em heroína. Nunca um filme havia sido tão bem sucedido em me vender uma fantasia. Naturalmente, que como é típico dos sonhos juvenis, nunca consegui realizar o que intentava. Nem mesmo o LSD, que viria a ser tão popular na escola quanto é o crack hoje, consegui comprar... E finalmente em minha vida adulta acabei tomando tantas drogas prescritas que, enfim, Cristiane F., tornou-se apenas como mais um filme de sessão da tarde no cômputo geral. Mas que certamente me ajudou a escolher cada amigo de minha juventude, ah mas isso sim!

V

Encolhida no canto do colchão estirado no meio da sala, envolvera seu corpo manifestante com uma manta branca, enquanto eu improvisava um varal para nossas roupas encharcadas e aquecia água para um chá. Primeiro dia do inverno em Curitiba. - Você acredita que com todos estes protestos as coisas vão melhorar? Tentei ganhar algum tempo antes de despejar o que pensava enquanto preenchia cuidadosamente a única xícara que possuía. - Não. Mas seria ainda mais incômodo nem mesmo participar. Ela refletiu por alguns instantes, enquando girava a xícara entre as mãos para aquecer os dedos. - Não entendo como você não joga na loteria. – Respondeu. – Pelo menos uma vez por semana você teria o sonho de que as coisas vão melhorar. E então me estendeu a xícara e o seu calor.

Papai Noel

     Não lembro mais, sei que discuti e não tinha mais argumento, joguei a bomba que me incomodava há tanto tempo, como um B52 sobre o Japão. - Então Papai Noel e o coelhinho da Páscoa não existem! Sem saberem de onde veio aquele argumento, mas visivelmente destronados meus pais recuaram sem dizer uma palavra. Não sei se eu havia me dado conta disso anteriormente, ou se foi um insight que irrompeu naquele instante, mas um mundo acabara de se fechar para mim. E eu mesmo o havia destruído irremediavelmente. Após aquela frase, que explodiu no meio do corredor, nenhuma fantasia mais me seria pertmitida. - Mas você não acredita mais no Natal - ouvi meu pai me recordar noutro dia. E neste mesma noite, antes de cair no sono, passei a inventariar o mundo, a procurar pelas coisas que acredito e pelas coisas que não acredito mais. E, cada mágica do mundo passou a se desvanecer. Quando o sol raiou, amanheci ateu.

Em Nome de Deus (UTFPR, 2012)

(Refelxão livre sobre o filme Stealing Heaven, de Clive Donner, 1988. 115 min.)

     A comparação entre Sócrates e Pedro Abelardo parece, à primeira vista, uma tarefa plenamente factível, pois o personagem de Platão, em seus diálogos, busca através da ironia e da maiêutica, uma verdade superior. Neles, pode-se entrever Sócrates cercado por seus discípulos em intermináveis discussões, assim como vimos no filme Abelardo a discutir com seus alunos. Além disto, podemos justapor a proximidade que Sócrates estabelecia com os estudantes, àquele de Abelardo com os seus discípulos. Todavia à medida que se avança na justaposição comparativa, mais as diferenças se intensificam. 
    Torna-se imprescindível, portanto, traçar um perfil de Sócrates mais acurado que o “herói” frequente dos diálogos platônicos. Na comédia As Nuvens, Aristófanes refere-se a este outro espectro de Sócrates, cuja caricatura mostra-se diversa daquela à qual nos acostumamos nos textos platônicos: ele é descrito como desajeitado, vive em um mundo de fantasias filosóficas e é pouco afeito aos problemas do mundo cotidiano.
    Fisicamente é um homem fraco, feio, de tez pálida e, humilhado por sua esposa Xantipa (1). Encerra-se em uma vida de promiscuidade, repleta por jovens que pretendem aprender com ele a arte da palavra. Claramente, portanto, se faz o tipo de relação que se estabelecia na companhia socrática pela citação do "cu alargado" dos filósofos gregos (sofistas e fisiólogos): 
a conduta filosófica é acusada dessa passividade, pois é o lógos injusto é o porta voz dos ensinamentos socráticos e o apologeta da nova educação, cuja pele amarelada, os ombros estreitos, a língua grande e o pênis comprido são os frutos colhidos por seus aprendizes. De modo que nessa comédia, além da identificação de Sócrates às explicações dos físicos, à conduta sofística e a posição divina contraposta à efemeridade ele também é descrito como um "cu alargado". (2) 
    Quem melhor representa o Sócrates histórico, ou com qual destes traçaremos um paralelo, indaga-se à maneira do pensador Aberlado?Assim, se fez necessário pensarmos antes em um paralelo entre o Sócrates platônico e o Sócrates aristofânico, para só então refletirmos sobre a presença de Sócrates na didática de Abelardo. Se em Aristófanes há pouco do que descreve Platão, o quanto encontramos em Platão que se coaduna com a comédia de Aristófanes? Aos poucos descobrimos que sim: há certas menções ao caráter de Sócrates que muito lembram ao ridículo do texto aristofânico.
    Lembremos em o Banquete, Sócrates tomado pelo seu daimon, em gesto de excentricidade, deter-se perante uma porta. Ele era assim, diz o texto, e não se lhe devem estranhar os modos. Em Górgias, encontramos a recusa à conformação com o ideal da pólis, a saber: um homem livre, capaz nas assembléias e na arte da Guerra; é Sócrates similar a uma mulher ou a um escravo.
    Comenta-se ainda que um adulto que se comporte como uma criança deveria ser açoitado para que se comportasse como adulto. Sócrates não é o adulto, e sim criança que é açoitada pela Pólis e condenado à morte por seu agir infame, inútil e corruptor. 
   Então, pensemos o tempo em que o Sócrates histórico viveu: lembremos que não possuímos um texto sequer de sua própria autoria, ele é um filósofo cuja contribuição apenas nos chega de segunda mão. O que ocasionou a falta de registros escritos deste pensador fundamental à filosofia ocidental? 
    Reale (3) nos esclarece que neste momento a cultura grega era, primeiramente oral e, a escrita não era tida como capaz de revelar conhecimentos de ordem superior. Platão mesmo revela esta resistência em seus diálogos quanto à sua filosofia última, considerando o texto escrito como mero auxílio mnemônico. Para ele não se pode aprender as verdades últimas a não ser pela dialética. Sócrates foi, portanto, representante de uma Grécia mais antiga que a de Platão, precursor do Sócrates platônico é, ele mesmo, um pré-socrático, cuja expressão filosófica se deu por meio exclusivamente oral. 
    Na Idade Média de Abelardo, presenciamos uma burguesia emergindo, procurando as Universidades já instituídas de modo a aprimorar conhecimentos de cunho lógico-metafísico – muito diferente do cidadão ateniense que procurava os sofistas para tornarem-se hábeis, oralmente, em uma assembléia democrática. No filme, vemos a dialética ocorrendo como um jogo despreocupado, algo que seria, totalmente, rejeitado pelo Sócrates da República. Ele considera a dialética como algo a ser apenas ensinado após atingida a plena maturidade. Pois, o uso indevido deste instrumento pelo jovem, o fará descrer de tudo, ou seja, o jogo das 
palavras, tornar-se-á nocivo para si e, para a pólis
    Pedro Abelardo, na versão cinematográfica, está muito além do universo grego. Encontramonos em uma sociedade deveras diferente em sua estrutura social, assim como, o medievo tratava a perspectiva filosófica de outra maneira. Tanto o herói Abelardo, como o personagem histórico, são cristãos e, sua filosofia prestava-se a desvelar a realidade sob uma iluminação de fundo religioso, ou seja, a colocava a serviço do esclarecimento das escrituras bíblicas (Ancillae Philosophicae). De fato, seu método consistia em analisar diversos pontos de vista reflexivo-religiosos, o que tornar-se-ia a base do Ensino Escolástico. Assim, permitia que seus discípulos co-participassem do jogo conceitual, cujo objetivo se mantinha entre o filosófico e o místico.
    Em Sócrates, a filosofia não está a serviço de, é o meio de elevação a verdades cada vez mais plenas, isto é, o método dialético não abandona o iniciado, até que este alcance a contemplação última. 
    Esta revelação é a verdade intuída apenas pelos mais capazes e, após grandes e violentos esforços contra a própria natureza. Entenda-se verdade e natureza, grosseiramente falando, como a antítese entre a episteme e phisis, sombras que iluminam toda realidade. Não há algo similar no mundo de Pedro Abelardo, posto que a verdade é um saber místico e é conhecida de antemão e, para a filosofia cabe torná-la apenas apreensível. 
    O uso da ironia, portanto, não deveria destruir o conhecimento religioso já constituído para atingir um de maior valor pois, o exercício dialógico deve antes construir andaimes para sustentar o status do saber religioso medieval. Logo, não se pode ver a formação do homem medieval à formação do cidadão grego, como paralelas.
    Em As Nuvens temos um jovem guerreiro que despreza a filosofia, pois esta torna os homens fracos e semelhantes a mulheres, efeminados, e este jovem não deseja viver entre os discípulos de Sócrates mesmo que pudesse obter meios para, ludibriando o lógos, saldar as dívidas de sua família. 
    O homem grego(4) é hábil no uso da palavra para seu benefício próprio, como lê-se, no texto homérico quanto à astúcia do Odisseu, ao conquistar (ou se safar!) de maneira sub-reptícia no decorrer de sua mirabolante viagem. Ulisses representa a visão grega de mundo possível e real. O homem medieval vê tal astúcia como baixeza de caráter, melhor representado no filme pelo tio cônego de Heloísa, um homem vil (de vilão, ou vila) e comerciante pérfido.
   O primeiro pretendente oferecido a Heloísa não representa também o ideal de formação do homem no século XI. Este último é bruto, embora de linhagem nobre, está muito aquém do que espera a jovem. 
   Parece que o homem idealizado neste período, deve conter elementos de nobreza e/ou da cavalaria medieval, associados ao saber escolástico. Por isto entendemos que a procura pelas Universidades pretende certo aprimoramento, seja do nobre ou do burguês, a um patamar que une poder e saber. 
    Neste sentido, as aulas "abertas" de Abelardo se inserem como meio de formação desta população seleta. O sentido de Universidade parece apontar mais para uma performance do que para um local onde acontecem as aulas. 
    As instituições universitárias hoje estão ligadas aos prédios, à estrutura do campus e à acumulação de informações, não aos atos de lecionar e aprender, que parecem ter sido o sentido primevo de Universidade. Assim, se depreende, que o modo de ensinar foi por muito tempo pautado pela repetição de conteúdos e saberes fundados sob a autoridade e, a antiguidade como critérios de verdade.
    A dialética do método didático de Abelardo é apresentada como diferenciada, pois "ele permite aos alunos falarem" durante as lições (disputatione). Isto significa que questionar estes saberes era algo pouco convencional (embora não fosse apenas Abelardo que agisse assim) entre os mestres da época, colocando Abelardo como re-introdutor de um modelo que lembra vagamente o de Sócrates.
    O filosofar de Pedro Abelardo e seus discípulos destoa muito da Idade Média representada parcial e equivocadamente pelo senso comum: penumbras, escuridões e bruxas. Todavia, a jovialidade e a intensidade com que aqueles personagens dialogavam entre si, são equiparáveis (no filme) ao compromisso erótico estabelecido entre Heloísa e o amante. 
   Os pactos educacionais e eróticos assumidos, acabam por intensificar os interesses da igreja, sem considerar o papel do pensador nas “universidades”. O exercício do filosofar anula a união de ambos, mas inicia e agrega uma nova filosofia pautada no discurso de Abelardo. 
    O corpo performático do Homem e do filósofo não são excludentes, pois eles se complementam. Em síntese, a sexualidade na Idade Média é transcrita e inscrita nesta tensão pungente entre o pseudo caráter místico-religioso-eclesiástico e a tentativa frustrada da negação do corpo.
   Tal instauração engendrada na negação do corpo pode ser entrevista no filme O Nome da Rosa que, ao descrever o horror ao risível, revela o deslumbramento pelo prazer, supostamente eclipsado pelo espírito da época. Assim o filosofar alegre e, muitas vezes, impiedoso de Pedro Abelardo e seus discípulos contrasta muito com o que imaginamos como educação na Baixa Idade Média porque, em geral, traduzir o Medievo evoca imagens penumbrosas e rostos circunspectos ao estilo do filme de Jean-Jacques Annaud, naquele, raramente lembramos, como muito bem o fez o diretor Clive Donner, que havia também alegres manhãs de sol, e não só para o filosofar. 

(1) Como bem relata Diógenes Laércio em sua obra Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres.
(2) AGOSTINI, Cristina de Souza. A construção de um Sócrates risível. Revista Itaca, Revista de pós-graduação em filosofia IFCS-UFRJ. Número 8/2009. Pg. 43 a51. 
(3) REALE, Giovanni. Platão. Nova ed. corr. São Paulo, SP: Loyola, 2007. xiv, 309 p. 
(4) Diferentemente do romano, como se pode, facilmente depreender das obras de Virgílio. 

O dia de Raquel

Raquel descera avisar que ao ônibus da escola que estava indisposta hoje. Era uma segunda e as crianças faziam algazarra nos ouvidos da motorista que tentava entender o que a menina falava da porta do veículo. Raquel era tímida, falava normalmente baixo, tornando o diálogo mais longo que Ana desejaria.
Ana sentia suas mãos tremerem, não, todo seu corpo tremia enquanto observava a filha voltando sorridente para casa pela porta da cozinha.
- Você não convenceu ninguém que está indisposta com este sorriso - asseverou Ana baixinho, não queriam ser ouvidas.
Raquel era embora tímida, muito bem humorada, como é o caso da juventude de seus quinze anos e estava ansiosa para o que viria a seguir, mas uma ansiedade gostosa, de quem vai dar um salto em uma piscina límpida.
Ana lembrava de quando também dava saltos, de quando sentia o frio na barriga como borboletas esvoaçando. E que tantas vezes isto prenunciava um período que hoje preferia nem lembrar. Mas hoje tudo voltava à sua memória, vividamente toda sua juventude se fazia presente como flashes súbitos em sua pupila. Justo hoje que precisava estar no presente.
Gustavo tomava um chocolate e comia biscoitos na mesa da cozinha, completamente alheio ao mundo se transformando a sua volta, aos cataclismas iminentes, e que esta seria a última vez que sentaria nesta mesa.
- Filho, hoje pode levar seu videogame para escola. - Sentiu que sua voz tremeu um pouco, mas a informação foi mais surpreendente que a forma que a transmitiu. Ele sabia que era proibido levar o jogo para escola, mas mesmo assim levava escondido. - Mas não deixe ninguém ver.
Subiu para o quarto do filho onde havia escondido uma bolsa com as cópias dos documentos e algum dinheiro. Ao pegar o envelope lembrou da difícil decisão de contar a seu chefe que precisava sair do trabalho. Como sentiu-se travada perante ele, sua voz não saía e nbem podia mover-se, mas suas lágrimas começaram a escorrer e ele quebrou o silêncio. Ela contou-lhe tudo, não havia planejado dizer nada, entrara ali apenas para avisar que iria embora, e agora tudo fluía que arriscou num ímpeto pedir que a demitisse. Ele não disse nada, passou-lhe um lenço de papel e, envergonhada, voltou ao seu trabalho. Sentiu-se aliviada ao ver que não havia ninguém no escritório assim ninguém saberia que havia chorado. Na quinta feira ele pediu que trouxesse sua carteira de trabalho e sexta lhe pagou em dinheiro. Disse boa sorte e desceu as escadas. Ana ficou ali com o envelope na mão sem saber o que fazer. As demais colegas ficaram olhando mas ninguém veio perguntar o que houve. Sentiu-se muito mais calma pelo silêncio, mesmo quebrado pelos olhares curiosos.
Pegou uma bolsa e colocou rapidamente algumas roupas do filho que já havia separado na véspera, deixando alguns cadernos e livros dentro da gaveta de meias. Lembrou ainda de por alguns brinquedos, não porque ainda brincasse com eles, mas porque lhe trazia boas lembranças.
Ao sair do quarto encontrou o marido com sua costumeira indiferença, mas ele pressentiu algo, tanto que perguntou o que era aquele envelope.
- Exames. Vou ao médico depois de deixar o Gustavo na escola. Vamos almoçar fora hoje. - Respondeu fingindo tranquilidade, mas nem precisava pois ele não esperou pela resposta e foi descendo as escadas completamente absorto em seu mundo.
Passou um mês juntando documentos, o mais difícil foi conseguir o histórico das crianças, mas acabou concordando em que enviassem por correio quando ficasse pronto. Teve que deixar pago para a secretária fazer isto. Não entendia porque levaria um mês inteiro para simplesmente imprimir uma folha de papel, carimbar, assinar. O endereço informaria quando ficasse pronto o documento. A secretária ficou desconfiada de que algo estava acontecendo, ou talvez fosse Ana a pensar demais, de qualquer forma a funcionária deu de ombros e colocou um clips com o telefone celular de Ana sobre a pasta do Gustavo e a deixou em uma pilha de tantas outras idênticas.
Ana pensou em quantas pessoas passavam pelo que ela vivia, como aquelas pastas ali depositadas, esquecidas, e que planejavam mas nunca sairiam dali. Sentiu-se uma pasta apenas, a ser colocada dali para lá, e guardada em um armário até não ser mais útil. Pensou que nada iria mudar.
Entrou no seu quarto e puxou uma pesada bolsa com tudo que organizara, havia pensado bem em cada item, feito várias listas até uma que contemplasse três mudas de roupa apenas. Era só isto que levaria de seu passado, mas aos poucos começou a colocar lembranças de um tempo anterior, um tempo em que era corajosa e cheia de vida, como que para trazer de volta este espírito. Um caderno, algumas cartas, fotos. Foi encaixando tudo cuidadosamente naquela mala até nada mais ali caber, nem mesmo o envelope que trazia nas mãos.
Ouviu o som do carro ser ligado na garagem. Ele deixava o carro ligado por alguns minutos todos os dias antes de sair, então decidiu esperar. Mas o tempo não passava, pareciam horas até ele finalmente decidir sair.
Então se acalmou um pouco e levou o filho à escola. Havia ainda muito a fazer antes de partir e não sabia ainda como iria contar ao menino. Há meses vem pensando nisso e a hora de partir se aproxima e não chegou ainda a uma decisão. Na verdade decidiu não dizer nada, mas não racionalmente, apenas foi deixando para frente, e a coisa que mais temia, ainda mais que partir, era a reação de Gustavo.
De volta a casa, sentiu-se diferente. Era como se tudo aquilo fosse irreal, como se já não pertencesse mais àquele lugar. Pela primeira vez acreditou que realmente estava acontecendo. Ana e Raquel arrumaram toalhas e roupas de cama em uma outra mala, em uma terceira colocaram roupas de inverno e sobrou espaço para colocar mesmo o volumoso livro que estava lendo. Quando se aproximou do meio dia chamou um táxi, sabia que era arriscado chamar um táxi nesta cidade pequena, mas não havia outra escolha.
O motorista ajudou a guardar as coisas no porta malas e no banco de trás, disse que iria visitar uma tia. Pensou, por que estou me justificando para o taxista? Decidiu não dizer mais nada, e pediu que dirigisse para a escola do filho.
O carro ficou parado na porta da escola enquanto Ana entrou para buscar o menino, sentia que iria passar mal de tanta ansiedade, mas logo um alívio desceu sobre si ao ver o garoto vir pelo corredor.
- Vamos viajar.
Ele imediatamente soube que algo estava errado e começou a chorar, quieto, mas chorava. Na rodoviária ainda precisavam esperar o horário do ônibus e decidiram fazer um lanche. A única pessoa animada era Raquel.
Quando o ônibus deixou o pátio da rodoviária, sentiu que o peso de todos estes anos estavam sendo tirados de sobre si, mal sentia as pernas, seu corpo parecia colado ao banco, derretendo contra a almofada macia, integrando-se como uma coisa só ao tecido, ao veículo, à estrada. Acabou adormecendo alguns instantes, há noites que não dormia e acordou sem saber se ainda estava sonhando.
Lembrou então que nem mesmo lembrara de avisar ao seu amigo que havia conseguido partir e que ele deveria estar em um pico de ansiedade neste momento. Pegou seu celular e escreveu apenas "Saímos.."
Andrei a aguardava na plataforma, nunca haviam se visto, mas o reconheceu imediatamente enquanto o ônibus estacionava. Pensava que devia ser louca por se confiar àquele rapaz. Se cumprimentaram desajeitadamente e seguiram procurar um táxi.
Ao chegar ao apartamento de Andrei, ele ajudou com as malas e Ana ficou na porta, sem saber se entrava ou não. Ele vendo sua insegurança, retirou a chave da porta entreaberta e a colocou em suas mãos.
- É sua casa agora, entre.

Memórias de Tadzio

       A primeira vez que o vi foi em um café próximo ao teatro, como tantos jovens intelectuais, passara a freqüentar aquele lugar com um pequeno livro e alguns trocados no bolso, suficientes para apenas um ou dois expressos. Ele sentava próximo à janela, lia o jornal, como tantos velhos que também freqüentavam ali, mas notei que ele mantinha o interesse nas pessoas, como se aquele jornal fosse um disfarce para seu verdadeiro passatempo: observar. Já havia cerca de quarenta minutos que o observador estava sendo por mim perscrutado, e, acredito que ele já sentira a invasão em seu pequeno mundo com meus olhos sobre ele. Logo pagou a conta e saiu. Não pensei muito naquele dia, até que descobri, semanas depois, o velho em meio aos músicos e soube que ele fora maestro da sinfônica, agora aposentado. Ele, ao me ver, mostrou certa satisfação, ainda que sutil, e me pediu para assumir meu lugar junto ao segundo violino. Após o ensaio, ele foi aplaudido e deixou o teatro discretamente. Eu o segui a certa distância até o momento em que ele se sentou na mureta do jardim para fumar um cigarro. Sentei-me próximo dele e falei-lhe alguma tolice, pois nada sabia da importância ou não, daquele homem para formação da sinfônica do Estado. Ele me respondeu de forma distante e pouco a vontade, não muito interessado em suas glórias passadas, me deixando também em certa confusão sobre o que falar a seguida. Esta foi a primeira vez que nos falamos e foi sobre nada, apenas expusemos a própria existência de um ao outro. Mas desde ali me interessei particularmente por aquele senhor e passei a devotar algum tempo a persegui-lo como fosse este meu próprio passatempo. Sempre o procurava no Caffè, nas apresentações da orquestra, nos bastidores do ensaio, até que nos tornamos, se posso assim dizer, amigos. 
       Passei a freqüentar a casa dele, ouvir longas sinfonias de suas gravações em vinil, a acompanhar seus gostos exóticos pelos chás, até comecei a fumar. Foi um momento no qual senti o quanto ambos fazíamos bem um ao outro. Adquiri certa familiaridade com seus modos, muitas vezes ríspidos, outras vezes gentis e, passei a amar aquele velho, solitário e cheio de manias, rude e orgulhoso. Acredito que ele também passou a me amar, aos poucos, à medida que compartilhava cada vez mais coisas comigo, me permitia viver mais à sua sombra, me deixava sentir o hálito da idade e do seu cigarro.Apaixonamo-nos, sem querer, sem forçar nada, deixei seu braço me amparar com força, trocamos olhares e o beijo saiu. Ele chorou, pediu desculpas. Eu não sabia o que fazer, ajoelhei-me em frente a ele e o beijei de novo. Na semana seguinte passamos a viver juntos, era como se os cinqüenta anos que nos separavam desaparecessem, ele jovem novamente, como eu, em um vigor viril intenso, e um cavalheirismo ímpar.E ele mudou também, passou a me falar de coisas de sua vida, me contou suas historias, seus sentimentos, me falou de lugares, sempre fazia questão de frisar os detalhes de cada lugar, as cores de cada paisagem, como se eu pudesse absorver a essência de cada uma de suas experiências.Contou-me sobre Veneza, e de como deixava-se perder em divagações frente ao mar, contou-me de Nova York e de como ouviu as sinfonias de Mahler, frisou as cores de Paris na primavera, seus aromas, seus cafés, como se fosse um guia turístico me apresentando um tour. 
     Entretanto, o mais estranho foi como me ensinou o quanto a vida é uma aventura inútil e, como pode-se extrair prazeres dentre toda essa banalidade. Com ele aprendi a sentir o sabor da comida, a saber o gosto do tempo e da luz, os significados dos cheiros, acho que minha vida foi profundamente enriquecida com seus setenta anos de experiência e, acho também que ele passou a ser um pouco mais jovial para com o mundo pois, eu acreditava que ele se fortalecia em mim: minha juventude o dava alento para viver novamente, para abandonar o tédio e se divertir como em seus momentos de prazer tão vividadementes descritos e, talvez permitir novos a ingressarem na lista.Por tantas vezes o vi me observar me divertir, ele ao longe, me permitindo aventurar-me, pois sabia que sempre retornaria à segurança de seus braços, nunca foi ciumento, era como se este sentimento não existisse nele, e acho que hoje entendo um pouco isto também.Ainda o vejo sentado em uma cadeira de praia lendo o jornal e eu na piscina seduzindo um jovem, o quanto isto o divertia e excitava. Mas algo que nunca compreendi era que ele me dizia adeus, desde aquele dia no Caffè, tudo foi um grande gesto de adeus, e tudo o que me disse, me ensinou, foi um modo de sobreviver, ele me adestrou na arte de viver e, de morrer. Agora quando escrevo estas linhas, alguns minutos após seu suicídio, entendo, que ele me esperava, esperava alguém a quem pudesse comunicar tudo o que viveu antes de deixar o mundo, e sua jovialidade, a alegria de ter deixado tudo em seu lugar.