Quando eu
andava pela universidade um olhar tocou ou meu. Diminuí meu passo, mas logo
percebi que este olhar parecia ver através de mim, naquele momento eu estava
invisível. Não desviou, nem trocou o passo, apenas seguiu tranquila pelo
corredor, sem um único sinal de reconhecimento. Passou como uma estranha,
passou como se nunca nos tivéssemos visto antes. Simplesmente seguiu com sua
vida. A vida que escolheu seguir um dia. Este olhar que me lançou foi indispensável,
esta foi a antítese de tantos outros olhares: de curiosidade, do desejo e o
olhar que falava uma língua a qual antecedia a voz, este era, afinal, nosso
idioma. Olhar. Agora estava encerrado todo o ciclo, com este último olhar, o da
indiferença. Agora eu poderia estar tranquilo, conhecia todos os seus olhares e
esta história podia ser finalmente se contada.
Escrever é
um pouco como brincar com a imortalidade. Enquanto tudo isto estava apenas na
minha memória, tudo era tão finito quanto eu mesmo. Mas as palavras, quando são
dispostas em um texto, assumem uma vida própria, que podem muito facilmente
sobreviver a seu autor. Podem até dizer coisas que seu autor não pretendia. Ou
serem meros abortos, condenadas a esvanecerem no vácuo digital.
Combinamos
de nos encontrar na Praça da Espanha, logo após o almoço, eu já sabia o que me
iria dizer, sabia também que se eu falasse poderia mudar tudo o que
cuidadosamente escolhera me dizer. Então demorei a chegar, como que postergando
a hora final, ainda sem saber como poderia engolir, com palato amargo, em uma
tarde tão ensolarada. Mas em um momento percebi que não poderia mais retardar o
que era certo. Eu precisava deixá-la ir. Ainda que a amasse com todas as minhas
forças, simplesmente não me via no destino que, em poucos meses, reescreveu
para si. E assim, ouvi, em silêncio, tudo o que tinha a me dizer.
Quando nos
conhecemos, eu me surpreendia beijando seus lábios e sentindo a língua atrevida
invadir minha boca. Mas sempre me perguntava “Quem é essa garota?” Era um
constante estranhamento aquela pessoa que mal conhecia estar me beijando com
tanta paixão que eu chegava a me questionar sobre minha identidade. Será que
não estou no corpo de um outro que ela toma como seu amante de longa data? Olhava no fundo dos meus olhos sem nenhum
temor e parecia me conhecer melhor que a mim mesmo.
Assim foi até
uma noite em que saímos para o Largo da Ordem, já devia ser alta madrugada
enquanto sentados no banco de concreto que circundava um monumento, a polícia
apareceu com sua costumeira brutalidade e começou a despejar a bebida barata dos
garotos pelo chão, era apenas o vinho comprado nas mercearias da vizinhança. Mas
ela indignou-se com o que policiais faziam e passou a questioná-los. Uma camada
viscosa e vermelha como sangue se espalhava, escorria pelo desnível, como um
sacrifíco aos deuses da Igreja do Rosário. Acho que neste momento foi que eu
comecei a conhecê-la. Pelo seu olhar de ódio, o qual me voltou quando eu disse
que deixássemos os policiais saírem e logo tudo voltaria ao normal. Não tive a
presença de espírito de dizer que ela estava certa, como tantas vezes depois,
mas passei a admirar seu modo combativo e destemido. Talvez nenhuma ação tenha
me feito aproximar-me mais dela do que vê-la enfrentado aqueles perplexos
policiais, armados pela rudeza de seu trabalho, incapazes de formular uma
resposta coerente ao perceberem o vandalismo que acabaram de cometer.
Seu eu a
amava? Não, ainda não. Mas ela havia se tornado, usando a expressão de Kundera,
meu es muss sein. Uma força
incontrolável me pressionava para ela. Por um tempo ainda ela dizia que era bom
até que eu passasse a semana longe, pois não se cansaria tão fácil de mim. Mas
quando me ligou no Seminário, insegura e frágil, a assumi como meu destino. Há
muitas razões para eu ter deixado o Seminário, algumas morais, outras que se
resumem em completo tédio, mas o que levou todas elas a se conjurarem em uma
escolha, foi este es muss sein.
Isto me faz
lembrar de uma missa noturna, na Catedral, à qual eu fora convocado a assistir
o Arcebispo. Era sábado de páscoa, e ela me esperava em um quarto de hotel nas
redondezas. Eu vesti minha túnica e fui realizar minha função, que implicava
inúmeros detalhes que para os católicos compõem este ritual.
Na manhã seguinte ela iria com amigos a uma
trilha de cachoeiras, então a acompanhei até o ponto de encontro, onde uma van
os aguardava. Em um último instante ela disse, “venha com a gente”. Nem mesmo
havia espaço. Eu estava trajado socialmente, calça, camisa e com uma túnica
branca na bolsa a tira-colo. Esperei um carro passar à minha frente e
atravessei a rua, para entrar no veículo. Cruzei assim uma linha, dei um passo
que não teria retorno. Viver no Seminário dali em diante seria impossível.
Conseguimos
uma barraca e acampamos em frente a uma alta queda. O ruído era tão intenso que
à noite parecia estar caindo um temporal. E era intenso também o frio, eu não
possuía uma única blusa; e durante a noite foi seu corpo, sua pele contra a
minha, que me aqueceu. Nenhum outro corpo parecia ter sido desenhado de tal
forma a encaixar-se perfeitamente ao meu, e eu já conhecia cada curva, cada
detalhe de sua pele, e com a mão em seu peito, sentia seu coração palpitando
enquanto dormia. Acordei antes e a fiquei observando até despertar: era neste
precioso momento que eu a achava mais bela.
Havia tanta
sede deste contato, que não conseguíamos ficar longe um do outro, a cada olhar
um beijo, não desses beijos de rotina, mas um beijo que era capaz de convergir
nossos mundos e calar o exterior, onde só nós poderíamos existir. Qualquer um
que tenha recebido um beijo assim desprezará todos os outros como meros
simulacros.
Foi logo
então que saí do Seminário e fui morar no meu Caffè. Ela toda manhã vinha me
visitar antes da aula, acordava-me lançando seu corpo nu e libidinoso sobre
mim, enquanto eu acariciava seu quadril. Uma flor de girassol desenhava-se em
suas costas. Acho que não sabia o que era a sexualidade antes dela, tudo havia
sido desprovido de sentido. E agora apenas tocá-la já me deixava em completo
êxtase. Podia jurar que a razão do universo existir era apenas para que aquele
instante acontecesse. E seria suficiente justificativa para toda criação.
Ela adorava
meu cheiro, corria as mão ágeis pela minha cintura, respirando minha pele, até
nossos olhares se encontrarem repletos de desejo. Seu cabelo curto caía sobre
nosso beijo demorado. Algo havia despertado em mim, até então eu considerava a
sexualidade algo banal e monótono. Agora eu a desejava ardentemente. Ela era
indispensável.
Mas nosso
idílio estava submetido às mesmas leis do tempo, e logo fechamos o Caffè e precisei
assumir aulas. Sem ter nenhum dinheiro, saía antes de amanhecer de casa,
alimentava-me apenas com lanche que era oferecido aos professores, um café com
leite e pão com doce. As dificuldades eram tantas que seria inútil detalhá-las.
Mas era após
as aulas que eu a encontrava na piscina. Ao me ver ela saía da água e me
beijava, com o corpo molhado e gelado, envolvendo-me em um abraço. Sentia a
água penetrar através de minhas roupas tão ostensivamente formais. Acho que
apenas vê-la saindo da água ofuscava toda a dificuldade, e fazia todo esforço
prodigamente recompensado.
A faltar
apenas apresentar o relatório de estágio para me formar, começamos a fazer
planos. Ela cursaria Design em universidade pública. Teríamos dois filhos, se
fosse um casal, o menino seria chamado de Jim e a menina, Janis. Ela já
começava a planejar como construiríamos nossos próprios móveis. Descrevia-me
como “indispensável”, tinha essa queda por expressões originais.
Mas o fim do
ano chegava, e estava já claro que o meu diploma não seria entregue, em seu
lugar, apenas uma licença para lecionar poderia ser expedida. Em vista disto,
decidi fazer outro exame vestibular, para Química desta vez. Ao mesmo tempo ela
se preparava para prestar Design na UFPR. Mas ela não passou. E se culpou por
isto. Senti que atribuiu o fracasso ao tempo que passamos juntos.
Nós não nos
entendíamos mais, eu perdia a paciência com facilidade por suas requisições, as
quais eu não tinha como atender: Eu estava vivendo sem dinheiro e na casa de
minha mãe, esquizofrênica, que vez ou outra tinha um sério surto. Na verdade, nem
sei se eu contava estas coisas para ela, pelo menos não com detalhes, me
envergonhava muito dos constrangimentos que sofria. E tem certas coisas que é
melhor esquecer.
Foi então
que decidi falar-lhe que deveríamos morar juntos, ter nossa casa o quanto
antes. Mas sua resposta foi menos que animadora.
- Veja, eu
morando na casa dos meus pais eles pagarão minha faculdade particular, e não é
qualquer faculdade, é a melhor que existe. Não tenho que pagar por moradia nem
me preocupar com minha alimentação. Não
faz sentido para eu sair de casa agora.
Foi assim percebi
que ela havia mudado. Uns dias depois me contou que começou a frequentar uma
igreja, e seu discurso mostrava que havia incorporado novas idéias, tão alheias
às anteriores que novamente me passei a me perguntar “Quem é essa garota?”. Mas
não era com alegria que me surpreendia mais.
- Aqueles
que fazem as coisas de Deus, serão abençoados com riquezas. O sucesso de uma
pessoa é como o Deus manifesta que a quer bem.
A partir de
então uma série de desentendimentos passou a marcar nossa relação até o ponto em
que nem mesmo nossa atração sobrevivera intacta. Sentia que seu lado selvagem
fora totalmente substituído por uma postura cordata e submissa.
Houve uma
noite, lembro-me bem, que fui claro com ela,
- Você acha
que vou começar trabalhando onde, no Positivo? Vou certamente começar acordando
às quatro e meia da manhã para dar aulas em um colégio do Estado na periferia,
pois é só onde vou encontrar trabalho.
- Mas não é
isso que quero para mim. – Respondeu-me imediatamente.
Alguns dias
depois ela me chamou para conversar, marcou a Praça da Espanha, um local em que
já havíamos passado bons momentos juntos, mas eu sabia o que me iria dizer, e
não seria bom. Por isto não me apressei. Tive que decidir primeiro para mim o
que faria, e neste ponto, só poderia deixá-la viver a vida que deseja.
Se eu a
amava? Completamente. Como nunca fui capaz de amar alguém novamente.
- Sabe, logo
começo minha faculdade e haverá churrascos e novos amigos. E não vejo você
participando disso.
Agora,
enquanto escrevo este texto, percebo-me usando uma blusa que ela me deu. Já
rota, desbotada, inconscientemente tenho usado esta peça por todos estes anos.
E aconteceu deste tecido estar aqui, envolvendo meu corpo como uma vez ela me
envolvera, invocando este passado para que, de
certa forma, pudesse voltar à vida.