A chuva encharcara nossos sapatos, e para nos aquecer entramos em um pequeno café nas imediações da Rua XV. Asja pediu um capuccino enquanto eu olhava o menu tentando descobrir o que se pareceria mais com um café de verdade. Espresso. Sempre me frustrava quando entrava em um café e tudo o que ofereciam eram essas aberrações. Acho que se servissem lama ninguém notaria a diferença, pensava. Pedi a contragosto um Café au lait, que é só um jeito de cobrar a mais por lama com leite.
Ela pegou um dos jornais e começou a folhear despreocupadamente enquanto aguardava ser servida. Falou sobre algo de política que devia ser importante, mas há tantos anos que não me interesso por notícias que poderia citar os personagens de Guerra e Paz e faria o mesmo sentido para mim. Decididamente eu estava de mal humor, e não estava fazendo um bom serviço em ocultar meu desconforto.
Então senti um pequeno calor em minha mão molhada de chuva, seus dedos deslizavam sobre meu pulso e quase senti-me exasperar por este toque não convidado.
- O que você tem? – perguntou olhando meu sapato com o couro escurecido pela água. Não retirei a mão, não queria que soubesse que a odiava naquele momento. Deixei repousar ali assim como tudo que me angustiava, aquecendo meu mal estar com seus próprios dedos. Deve ser assim, pelas suas próprias mãos, pensei.
O café não apenas tinha sabor de lama, mas cheirava a lama, era um lodaçal em uma xícara, acompanhado por chocolate mentolado. Ao por açúcar deixei escorrer aquele chorume no pires, tornando-o ainda mais repugnante.
- Você entende que não pude evitar, eu precisava ir. – seus olhos encheram-se de lágrimas mas não o suficiente para deixar uma sequer escorrer. Eu não entendia como aquilo era possível, mas fiz que sim com a cabeça e engoli um pouco do café como uma punição auto infligida. Até fiz uma graça em minha mente pensando se a cicuta não seria mais saborosa, ou apropriada ao momento.
Eu sabia que toda aquela raiva não era de Asja, era uma raiva do mundo, uma raiva que não podia fixar em ponto algum, que se espalhava como nuvem de probabilidade por todo espaço. E onde quer que olhasse lá materializava-se.
- Eu entendo que você não queria continuar, mas não fiz por mal. Não a você. – Lamentava com olhos úmidos. Nem era ciúmes, nem era o fato de ter sido deixado abruptamente. O que me consumia era ter acreditado em suas palavras. Tivesse ela pelo menos não me envolvido a ponto de me deixar entregar a todas as fantasias que me fez sonhar, tudo estaria bem. O que dói é que tenha me vendido tão caro sonhos que se desfazem no ar e, depois, acordar naquela manhã tão silenciosa e sair sem dizer nada.
- Eu pensei que teríamos uma chance se eu fosse, não podia desistir assim. Achei que as coisas poderiam mudar se eu o visse novamente. – Disse ainda segurando as lágrimas que não eram por mim.
Será que ela esperava que eu concordasse? Não, ela sabe que nunca seria diferente. Minha mente dava voltas, rodopios loucos, tentando fazer sentido daquilo tudo. O café ja estava frio, assumindo perfeitamente a aparência de um punhado de lama no fundo da xícara. E eu via aquela matéria disforme como nossa história juntos. Eu pensava que era um saboroso café, mas tudo revelara-se mero lodo frio. Daquela mancha escurecida no fundo da xícara podia ouvir as vezes que disse que me amava, os apelidos carinhosos, o olhar de desejo, a boca voluptuosa. Mas foi tudo faz de contas, as palavras são baratas, os apelidos são banais, o olhar não me via. Mas a boca sim, a volúpia era real.
- Que vai fazer agora? – Perguntei.
- Aprendi minha lição, nunca mais. – Respondeu-me resoluta olhando diretamente nos olhos. Se já não conhecece esta boca, eu acreditaria. Poderia agora escolher acreditar mais uma vez, ou então fazer um voto de acreditar em tudo, só para me nutrir desta fantasia. E de todas as outras que ela venha a plasmar em minha frente. Mas sonhar, aprendera, acaba com a manhã, e outro dia que ele vai ligar novamente e vou me encontrar sozinho e sem sonhos. Não vale a pena sofrer por isso, nesta mesma noite ele irá abraçar o filho, beijar a esposa e até talvez dizer que a ama. Assim são os mentirosos. Então puxei sua mão e aproximei-me de seu rosto quase lívido, e beijei aquela boca rubra e mentirosa. A senti abraçar-me forte, envolvendo-me completamente em seu falso amor.
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