Raquel descera avisar que ao ônibus da escola que estava indisposta hoje. Era uma segunda e as crianças faziam algazarra nos ouvidos da motorista que tentava entender o que a menina falava da porta do veículo. Raquel era tímida, falava normalmente baixo, tornando o diálogo mais longo que Ana desejaria.
Ana sentia suas mãos tremerem, não, todo seu corpo tremia enquanto observava a filha voltando sorridente para casa pela porta da cozinha.
- Você não convenceu ninguém que está indisposta com este sorriso - asseverou Ana baixinho, não queriam ser ouvidas.
Raquel era embora tímida, muito bem humorada, como é o caso da juventude de seus quinze anos e estava ansiosa para o que viria a seguir, mas uma ansiedade gostosa, de quem vai dar um salto em uma piscina límpida.
Ana lembrava de quando também dava saltos, de quando sentia o frio na barriga como borboletas esvoaçando. E que tantas vezes isto prenunciava um período que hoje preferia nem lembrar. Mas hoje tudo voltava à sua memória, vividamente toda sua juventude se fazia presente como flashes súbitos em sua pupila. Justo hoje que precisava estar no presente.
Gustavo tomava um chocolate e comia biscoitos na mesa da cozinha, completamente alheio ao mundo se transformando a sua volta, aos cataclismas iminentes, e que esta seria a última vez que sentaria nesta mesa.
- Filho, hoje pode levar seu videogame para escola. - Sentiu que sua voz tremeu um pouco, mas a informação foi mais surpreendente que a forma que a transmitiu. Ele sabia que era proibido levar o jogo para escola, mas mesmo assim levava escondido. - Mas não deixe ninguém ver.
Subiu para o quarto do filho onde havia escondido uma bolsa com as cópias dos documentos e algum dinheiro. Ao pegar o envelope lembrou da difícil decisão de contar a seu chefe que precisava sair do trabalho. Como sentiu-se travada perante ele, sua voz não saía e nbem podia mover-se, mas suas lágrimas começaram a escorrer e ele quebrou o silêncio. Ela contou-lhe tudo, não havia planejado dizer nada, entrara ali apenas para avisar que iria embora, e agora tudo fluía que arriscou num ímpeto pedir que a demitisse. Ele não disse nada, passou-lhe um lenço de papel e, envergonhada, voltou ao seu trabalho. Sentiu-se aliviada ao ver que não havia ninguém no escritório assim ninguém saberia que havia chorado. Na quinta feira ele pediu que trouxesse sua carteira de trabalho e sexta lhe pagou em dinheiro. Disse boa sorte e desceu as escadas. Ana ficou ali com o envelope na mão sem saber o que fazer. As demais colegas ficaram olhando mas ninguém veio perguntar o que houve. Sentiu-se muito mais calma pelo silêncio, mesmo quebrado pelos olhares curiosos.
Pegou uma bolsa e colocou rapidamente algumas roupas do filho que já havia separado na véspera, deixando alguns cadernos e livros dentro da gaveta de meias. Lembrou ainda de por alguns brinquedos, não porque ainda brincasse com eles, mas porque lhe trazia boas lembranças.
Ao sair do quarto encontrou o marido com sua costumeira indiferença, mas ele pressentiu algo, tanto que perguntou o que era aquele envelope.
- Exames. Vou ao médico depois de deixar o Gustavo na escola. Vamos almoçar fora hoje. - Respondeu fingindo tranquilidade, mas nem precisava pois ele não esperou pela resposta e foi descendo as escadas completamente absorto em seu mundo.
Passou um mês juntando documentos, o mais difícil foi conseguir o histórico das crianças, mas acabou concordando em que enviassem por correio quando ficasse pronto. Teve que deixar pago para a secretária fazer isto. Não entendia porque levaria um mês inteiro para simplesmente imprimir uma folha de papel, carimbar, assinar. O endereço informaria quando ficasse pronto o documento. A secretária ficou desconfiada de que algo estava acontecendo, ou talvez fosse Ana a pensar demais, de qualquer forma a funcionária deu de ombros e colocou um clips com o telefone celular de Ana sobre a pasta do Gustavo e a deixou em uma pilha de tantas outras idênticas.
Ana pensou em quantas pessoas passavam pelo que ela vivia, como aquelas pastas ali depositadas, esquecidas, e que planejavam mas nunca sairiam dali. Sentiu-se uma pasta apenas, a ser colocada dali para lá, e guardada em um armário até não ser mais útil. Pensou que nada iria mudar.
Entrou no seu quarto e puxou uma pesada bolsa com tudo que organizara, havia pensado bem em cada item, feito várias listas até uma que contemplasse três mudas de roupa apenas. Era só isto que levaria de seu passado, mas aos poucos começou a colocar lembranças de um tempo anterior, um tempo em que era corajosa e cheia de vida, como que para trazer de volta este espírito. Um caderno, algumas cartas, fotos. Foi encaixando tudo cuidadosamente naquela mala até nada mais ali caber, nem mesmo o envelope que trazia nas mãos.
Ouviu o som do carro ser ligado na garagem. Ele deixava o carro ligado por alguns minutos todos os dias antes de sair, então decidiu esperar. Mas o tempo não passava, pareciam horas até ele finalmente decidir sair.
Então se acalmou um pouco e levou o filho à escola. Havia ainda muito a fazer antes de partir e não sabia ainda como iria contar ao menino. Há meses vem pensando nisso e a hora de partir se aproxima e não chegou ainda a uma decisão. Na verdade decidiu não dizer nada, mas não racionalmente, apenas foi deixando para frente, e a coisa que mais temia, ainda mais que partir, era a reação de Gustavo.
De volta a casa, sentiu-se diferente. Era como se tudo aquilo fosse irreal, como se já não pertencesse mais àquele lugar. Pela primeira vez acreditou que realmente estava acontecendo. Ana e Raquel arrumaram toalhas e roupas de cama em uma outra mala, em uma terceira colocaram roupas de inverno e sobrou espaço para colocar mesmo o volumoso livro que estava lendo. Quando se aproximou do meio dia chamou um táxi, sabia que era arriscado chamar um táxi nesta cidade pequena, mas não havia outra escolha.
O motorista ajudou a guardar as coisas no porta malas e no banco de trás, disse que iria visitar uma tia. Pensou, por que estou me justificando para o taxista? Decidiu não dizer mais nada, e pediu que dirigisse para a escola do filho.
O carro ficou parado na porta da escola enquanto Ana entrou para buscar o menino, sentia que iria passar mal de tanta ansiedade, mas logo um alívio desceu sobre si ao ver o garoto vir pelo corredor.
- Vamos viajar.
Ele imediatamente soube que algo estava errado e começou a chorar, quieto, mas chorava. Na rodoviária ainda precisavam esperar o horário do ônibus e decidiram fazer um lanche. A única pessoa animada era Raquel.
Quando o ônibus deixou o pátio da rodoviária, sentiu que o peso de todos estes anos estavam sendo tirados de sobre si, mal sentia as pernas, seu corpo parecia colado ao banco, derretendo contra a almofada macia, integrando-se como uma coisa só ao tecido, ao veículo, à estrada. Acabou adormecendo alguns instantes, há noites que não dormia e acordou sem saber se ainda estava sonhando.
Lembrou então que nem mesmo lembrara de avisar ao seu amigo que havia conseguido partir e que ele deveria estar em um pico de ansiedade neste momento. Pegou seu celular e escreveu apenas "Saímos.."
Andrei a aguardava na plataforma, nunca haviam se visto, mas o reconheceu imediatamente enquanto o ônibus estacionava. Pensava que devia ser louca por se confiar àquele rapaz. Se cumprimentaram desajeitadamente e seguiram procurar um táxi.
Ao chegar ao apartamento de Andrei, ele ajudou com as malas e Ana ficou na porta, sem saber se entrava ou não. Ele vendo sua insegurança, retirou a chave da porta entreaberta e a colocou em suas mãos.
- É sua casa agora, entre.
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