A primeira vez que o vi foi em um café próximo ao teatro, como tantos jovens intelectuais, passara a freqüentar aquele lugar com um pequeno livro e alguns trocados no bolso, suficientes para apenas um ou dois expressos. Ele sentava próximo à janela, lia o jornal, como tantos velhos que também freqüentavam ali, mas notei que ele mantinha o interesse nas pessoas, como se aquele jornal fosse um disfarce para seu verdadeiro passatempo: observar. Já havia cerca de quarenta minutos que o observador estava sendo por mim perscrutado, e, acredito que ele já sentira a invasão em seu pequeno mundo com meus olhos sobre ele. Logo pagou a conta e saiu. Não pensei muito naquele dia, até que descobri, semanas depois, o velho em meio aos músicos e soube que ele fora maestro da sinfônica, agora aposentado. Ele, ao me ver, mostrou certa satisfação, ainda que sutil, e me pediu para assumir meu lugar junto ao segundo violino. Após o ensaio, ele foi aplaudido e deixou o teatro discretamente. Eu o segui a certa distância até o momento em que ele se sentou na mureta do jardim para fumar um cigarro. Sentei-me próximo dele e falei-lhe alguma tolice, pois nada sabia da importância ou não, daquele homem para formação da sinfônica do Estado. Ele me respondeu de forma distante e pouco a vontade, não muito interessado em suas glórias passadas, me deixando também em certa confusão sobre o que falar a seguida. Esta foi a primeira vez que nos falamos e foi sobre nada, apenas expusemos a própria existência de um ao outro. Mas desde ali me interessei particularmente por aquele senhor e passei a devotar algum tempo a persegui-lo como fosse este meu próprio passatempo. Sempre o procurava no Caffè, nas apresentações da orquestra, nos bastidores do ensaio, até que nos tornamos, se posso assim dizer, amigos.
Passei a freqüentar a casa dele, ouvir longas sinfonias de suas gravações em vinil, a acompanhar seus gostos exóticos pelos chás, até comecei a fumar. Foi um momento no qual senti o quanto ambos fazíamos bem um ao outro. Adquiri certa familiaridade com seus modos, muitas vezes ríspidos, outras vezes gentis e, passei a amar aquele velho, solitário e cheio de manias, rude e orgulhoso. Acredito que ele também passou a me amar, aos poucos, à medida que compartilhava cada vez mais coisas comigo, me permitia viver mais à sua sombra, me deixava sentir o hálito da idade e do seu cigarro.Apaixonamo-nos, sem querer, sem forçar nada, deixei seu braço me amparar com força, trocamos olhares e o beijo saiu. Ele chorou, pediu desculpas. Eu não sabia o que fazer, ajoelhei-me em frente a ele e o beijei de novo. Na semana seguinte passamos a viver juntos, era como se os cinqüenta anos que nos separavam desaparecessem, ele jovem novamente, como eu, em um vigor viril intenso, e um cavalheirismo ímpar.E ele mudou também, passou a me falar de coisas de sua vida, me contou suas historias, seus sentimentos, me falou de lugares, sempre fazia questão de frisar os detalhes de cada lugar, as cores de cada paisagem, como se eu pudesse absorver a essência de cada uma de suas experiências.Contou-me sobre Veneza, e de como deixava-se perder em divagações frente ao mar, contou-me de Nova York e de como ouviu as sinfonias de Mahler, frisou as cores de Paris na primavera, seus aromas, seus cafés, como se fosse um guia turístico me apresentando um tour.
Entretanto, o mais estranho foi como me ensinou o quanto a vida é uma aventura inútil e, como pode-se extrair prazeres dentre toda essa banalidade. Com ele aprendi a sentir o sabor da comida, a saber o gosto do tempo e da luz, os significados dos cheiros, acho que minha vida foi profundamente enriquecida com seus setenta anos de experiência e, acho também que ele passou a ser um pouco mais jovial para com o mundo pois, eu acreditava que ele se fortalecia em mim: minha juventude o dava alento para viver novamente, para abandonar o tédio e se divertir como em seus momentos de prazer tão vividadementes descritos e, talvez permitir novos a ingressarem na lista.Por tantas vezes o vi me observar me divertir, ele ao longe, me permitindo aventurar-me, pois sabia que sempre retornaria à segurança de seus braços, nunca foi ciumento, era como se este sentimento não existisse nele, e acho que hoje entendo um pouco isto também.Ainda o vejo sentado em uma cadeira de praia lendo o jornal e eu na piscina seduzindo um jovem, o quanto isto o divertia e excitava. Mas algo que nunca compreendi era que ele me dizia adeus, desde aquele dia no Caffè, tudo foi um grande gesto de adeus, e tudo o que me disse, me ensinou, foi um modo de sobreviver, ele me adestrou na arte de viver e, de morrer. Agora quando escrevo estas linhas, alguns minutos após seu suicídio, entendo, que ele me esperava, esperava alguém a quem pudesse comunicar tudo o que viveu antes de deixar o mundo, e sua jovialidade, a alegria de ter deixado tudo em seu lugar.
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