(Refelxão livre sobre o filme Stealing Heaven, de Clive Donner, 1988. 115 min.)
A comparação entre Sócrates e Pedro Abelardo parece, à primeira vista, uma tarefa plenamente factível, pois o personagem de Platão, em seus diálogos, busca através da ironia e da maiêutica, uma verdade superior. Neles, pode-se entrever Sócrates cercado por seus discípulos em intermináveis discussões, assim como vimos no filme Abelardo a discutir com seus alunos. Além disto, podemos justapor a proximidade que Sócrates estabelecia com os estudantes, àquele de Abelardo com os seus discípulos. Todavia à medida que se avança na justaposição comparativa, mais as diferenças se intensificam.
Torna-se imprescindível, portanto, traçar um perfil de Sócrates mais acurado que o “herói” frequente dos diálogos platônicos. Na comédia As Nuvens, Aristófanes refere-se a este outro espectro de Sócrates, cuja caricatura mostra-se diversa daquela à qual nos acostumamos nos textos platônicos: ele é descrito como desajeitado, vive em um mundo de fantasias filosóficas e é pouco afeito aos problemas do mundo cotidiano.
Fisicamente é um homem fraco, feio, de tez pálida e, humilhado por sua esposa Xantipa (1). Encerra-se em uma vida de promiscuidade, repleta por jovens que pretendem aprender com ele a arte da palavra. Claramente, portanto, se faz o tipo de relação que se estabelecia na companhia socrática pela citação do "cu alargado" dos filósofos gregos (sofistas e fisiólogos):
a conduta filosófica é acusada dessa passividade, pois é o lógos injusto é o porta voz dos ensinamentos socráticos e o apologeta da nova educação, cuja pele amarelada, os ombros estreitos, a língua grande e o pênis comprido são os frutos colhidos por seus aprendizes. De modo que nessa comédia, além da identificação de Sócrates às explicações dos físicos, à conduta sofística e a posição divina contraposta à efemeridade ele também é descrito como um "cu alargado". (2)
Quem melhor representa o Sócrates histórico, ou com qual destes traçaremos um paralelo, indaga-se à maneira do pensador Aberlado?Assim, se fez necessário pensarmos antes em um paralelo entre o Sócrates platônico e o Sócrates aristofânico, para só então refletirmos sobre a presença de Sócrates na didática de Abelardo. Se em Aristófanes há pouco do que descreve Platão, o quanto encontramos em Platão que se coaduna com a comédia de Aristófanes? Aos poucos descobrimos que sim: há certas menções ao caráter de Sócrates que muito lembram ao ridículo do texto aristofânico.
Lembremos em o Banquete, Sócrates tomado pelo seu daimon, em gesto de excentricidade, deter-se perante uma porta. Ele era assim, diz o texto, e não se lhe devem estranhar os modos. Em Górgias, encontramos a recusa à conformação com o ideal da pólis, a saber: um homem livre, capaz nas assembléias e na arte da Guerra; é Sócrates similar a uma mulher ou a um escravo.
Comenta-se ainda que um adulto que se comporte como uma criança deveria ser açoitado para que se comportasse como adulto. Sócrates não é o adulto, e sim criança que é açoitada pela Pólis e condenado à morte por seu agir infame, inútil e corruptor.
Então, pensemos o tempo em que o Sócrates histórico viveu: lembremos que não possuímos um texto sequer de sua própria autoria, ele é um filósofo cuja contribuição apenas nos chega de segunda mão. O que ocasionou a falta de registros escritos deste pensador fundamental à filosofia ocidental?
Reale (3) nos esclarece que neste momento a cultura grega era, primeiramente oral e, a escrita não era tida como capaz de revelar conhecimentos de ordem superior. Platão mesmo revela esta resistência em seus diálogos quanto à sua filosofia última, considerando o texto escrito como mero auxílio mnemônico. Para ele não se pode aprender as verdades últimas a não ser pela dialética. Sócrates foi, portanto, representante de uma Grécia mais antiga que a de Platão, precursor do Sócrates platônico é, ele mesmo, um pré-socrático, cuja expressão filosófica se deu por meio exclusivamente oral.
Na Idade Média de Abelardo, presenciamos uma burguesia emergindo, procurando as Universidades já instituídas de modo a aprimorar conhecimentos de cunho lógico-metafísico – muito diferente do cidadão ateniense que procurava os sofistas para tornarem-se hábeis, oralmente, em uma assembléia democrática. No filme, vemos a dialética ocorrendo como um jogo despreocupado, algo que seria, totalmente, rejeitado pelo Sócrates da República. Ele considera a dialética como algo a ser apenas ensinado após atingida a plena maturidade. Pois, o uso indevido deste instrumento pelo jovem, o fará descrer de tudo, ou seja, o jogo das
palavras, tornar-se-á nocivo para si e, para a pólis.
Pedro Abelardo, na versão cinematográfica, está muito além do universo grego. Encontramonos em uma sociedade deveras diferente em sua estrutura social, assim como, o medievo tratava a perspectiva filosófica de outra maneira. Tanto o herói Abelardo, como o personagem histórico, são cristãos e, sua filosofia prestava-se a desvelar a realidade sob uma iluminação de fundo religioso, ou seja, a colocava a serviço do esclarecimento das escrituras bíblicas (Ancillae Philosophicae). De fato, seu método consistia em analisar diversos pontos de vista reflexivo-religiosos, o que tornar-se-ia a base do Ensino Escolástico. Assim, permitia que seus discípulos co-participassem do jogo conceitual, cujo objetivo se mantinha entre o filosófico e o místico.
Em Sócrates, a filosofia não está a serviço de, é o meio de elevação a verdades cada vez mais plenas, isto é, o método dialético não abandona o iniciado, até que este alcance a contemplação última.
Esta revelação é a verdade intuída apenas pelos mais capazes e, após grandes e violentos esforços contra a própria natureza. Entenda-se verdade e natureza, grosseiramente falando, como a antítese entre a episteme e phisis, sombras que iluminam toda realidade. Não há algo similar no mundo de Pedro Abelardo, posto que a verdade é um saber místico e é conhecida de antemão e, para a filosofia cabe torná-la apenas apreensível.
O uso da ironia, portanto, não deveria destruir o conhecimento religioso já constituído para atingir um de maior valor pois, o exercício dialógico deve antes construir andaimes para sustentar o status do saber religioso medieval. Logo, não se pode ver a formação do homem medieval à formação do cidadão grego, como paralelas.
Em As Nuvens temos um jovem guerreiro que despreza a filosofia, pois esta torna os homens fracos e semelhantes a mulheres, efeminados, e este jovem não deseja viver entre os discípulos de Sócrates mesmo que pudesse obter meios para, ludibriando o lógos, saldar as dívidas de sua família.
O homem grego(4) é hábil no uso da palavra para seu benefício próprio, como lê-se, no texto homérico quanto à astúcia do Odisseu, ao conquistar (ou se safar!) de maneira sub-reptícia no decorrer de sua mirabolante viagem. Ulisses representa a visão grega de mundo possível e real. O homem medieval vê tal astúcia como baixeza de caráter, melhor representado no filme pelo tio cônego de Heloísa, um homem vil (de vilão, ou vila) e comerciante pérfido.
O primeiro pretendente oferecido a Heloísa não representa também o ideal de formação do homem no século XI. Este último é bruto, embora de linhagem nobre, está muito aquém do que espera a jovem.
Parece que o homem idealizado neste período, deve conter elementos de nobreza e/ou da cavalaria medieval, associados ao saber escolástico. Por isto entendemos que a procura pelas Universidades pretende certo aprimoramento, seja do nobre ou do burguês, a um patamar que une poder e saber.
Neste sentido, as aulas "abertas" de Abelardo se inserem como meio de formação desta população seleta. O sentido de Universidade parece apontar mais para uma performance do que para um local onde acontecem as aulas.
As instituições universitárias hoje estão ligadas aos prédios, à estrutura do campus e à acumulação de informações, não aos atos de lecionar e aprender, que parecem ter sido o sentido primevo de Universidade. Assim, se depreende, que o modo de ensinar foi por muito tempo pautado pela repetição de conteúdos e saberes fundados sob a autoridade e, a antiguidade como critérios de verdade.
A dialética do método didático de Abelardo é apresentada como diferenciada, pois "ele permite aos alunos falarem" durante as lições (disputatione). Isto significa que questionar estes saberes era algo pouco convencional (embora não fosse apenas Abelardo que agisse assim) entre os mestres da época, colocando Abelardo como re-introdutor de um modelo que lembra vagamente o de Sócrates.
O filosofar de Pedro Abelardo e seus discípulos destoa muito da Idade Média representada parcial e equivocadamente pelo senso comum: penumbras, escuridões e bruxas. Todavia, a jovialidade e a intensidade com que aqueles personagens dialogavam entre si, são equiparáveis (no filme) ao compromisso erótico estabelecido entre Heloísa e o amante.
Os pactos educacionais e eróticos assumidos, acabam por intensificar os interesses da igreja, sem considerar o papel do pensador nas “universidades”. O exercício do filosofar anula a união de ambos, mas inicia e agrega uma nova filosofia pautada no discurso de Abelardo.
O corpo performático do Homem e do filósofo não são excludentes, pois eles se complementam. Em síntese, a sexualidade na Idade Média é transcrita e inscrita nesta tensão pungente entre o pseudo caráter místico-religioso-eclesiástico e a tentativa frustrada da negação do corpo.
Tal instauração engendrada na negação do corpo pode ser entrevista no filme O Nome da Rosa que, ao descrever o horror ao risível, revela o deslumbramento pelo prazer, supostamente eclipsado pelo espírito da época. Assim o filosofar alegre e, muitas vezes, impiedoso de Pedro Abelardo e seus discípulos contrasta muito com o que imaginamos como educação na Baixa Idade Média porque, em geral, traduzir o Medievo evoca imagens penumbrosas e rostos circunspectos ao estilo do filme de Jean-Jacques Annaud, naquele, raramente lembramos, como muito bem o fez o diretor Clive Donner, que havia também alegres manhãs de sol, e não só para o filosofar.
(1) Como bem relata Diógenes Laércio em sua obra Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres.
(2) AGOSTINI, Cristina de Souza. A construção de um Sócrates risível. Revista Itaca, Revista de pós-graduação em filosofia IFCS-UFRJ. Número 8/2009. Pg. 43 a51.
(3) REALE, Giovanni. Platão. Nova ed. corr. São Paulo, SP: Loyola, 2007. xiv, 309 p.
(4) Diferentemente do romano, como se pode, facilmente depreender das obras de Virgílio.
No comments:
Post a Comment