Então vai chegar o dia que estarei morto... defunto... sem vida. Mas que é essa coisa mesmo que chamamos de vida... uma reação química que chamamos corpo, um corpo com uma mente, uma mente feita por um cérebro. Este cérebro que contém todas minhas memórias, que sonhou todas minhas fantasias, que sofreu tantos dissabores... um dia será só carne inerte. Minha alma é feita de uma máquina de carne! Uma máquina que cria o mundo que me cerca, uma máquina que cria meu universo. Veja... esta coisa disforme, convoluta, pode criar um mundo... e com ela, ele desaparecerá. Todos os sonhos, todos os segredos, todas as experiências, e aquelas aulas de cálculo... tudo desaparecerá. Comigo iniciou o tempo, o tempo é finito, se extinguirá quando esta máquina deixar de funcionar. Às vezes fico vendo de minha janela aqueles que acreditam em coisas, que vêm sentido na vida, que esperam por uma vida no além... até me comovo com tais idéias singelas ao vê-los cantar ao sábado à noite. Sinto um pouco de inveja, vivem sem perceber que a vida é vã, que as paixões são inúteis, e que é um absurdo se pensar. Como deve ser bom achar que as coisas existem! Tomar a ficção por realidade e se entregar embriagadamente à fantasia, e temer a morte. Mas sei que é irrelevante, eu, o mundo, nada disto existe. Sim, criei tudo isto do jeito que é, de uma forma perversa para me enganar... mas sou ruim com mentiras, canso delas. Tem noites que sinto meu corpo como se fosse de outro, o coração palpita, o ar é inalado e exalado, o vento serpenteia pela minha pele... e pensamentos! Pensamentos voam por minha mente, saltitando e pedindo que me entregue a crê-los. Às vezes penso até que sou eu... este amontoado de desejos e medos (mas quantos eus me constituem!). E quando acordo pela manhã quero negar minha determinação, quero me libertar de meus instintos, quero provar minha liberdade... Quanta ingenuidade pode nos invadir numa manhã, principalmente se for segunda-feira... esta vontade de começar algo sempre vem nas segundas. Então imagino loucuras, os atos que mais afrontem a minha natureza, proponho insanidades, mas no final da tarde vejo que o que fiz, o fiz por meus instintos apenas... Algumas vezes na vida tentei esquecer de tudo isso, primeiro na infância, depois na adolescência... mas sempre encontrei-me novamente no mesmo ponto. A música pode ser um alento, as paixões também, mas o silêncio ou a rotina costumam me acordar subitamente em um mundo absurdo. Tive a chance de fazer tudo o quanto quisesse, de ser o que desejasse, mas porque desejaria algo mais do que contemplar o abismo do não ser? É uma coisa surpreendente que este amontoado de matéria pense sobre sua improbabilidade, contemple o vazio que a constitui, e por fim saiba que mesmo este pensar é irrelevante. Exercício inútil, um universo que se pensa, mas por um instante apenas e logo se desfaz na entropia. Sabe aquela pessoa querida, que não existe mais? Cujas experiências, lembranças, e aquelas expectativas tão caras... foram todos apagados da existência como se nunca houvessem sido. E um dia, este feixe de sonhos, este torvelinho de desejos, estas tantas memórias que me constituem, serão também aniquilados... e será como se nunca houvessem existido. O mundo que dou tanto valor desaparecerá e sequer poderei lamentar, pois nem mesmo o saberei.
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