O amor nos torna bons. Não importa
quem amemos, também não importa se somos correspondidos ou se a relação é
duradoura. Basta a experiência de amar, isso nos transforma.
Caderno de Maya, p.253.
Eu[1] estava
levando uma vida numa boa, no meu canto, conformado com minha situação e
condição, não sentindo pena de mim, mas imaginando que a vida seria isso mesmo,
cuidar da casa e de uma esposa abusiva, dos meus bichinhos, passar o dia no
computador. Mas um dia recebi um convite para um grupo de uma cidade distante
em que vivera na infância. Nossa, nem mais lembrava que esse lugar existia! - Quando
a gente lembra é como se estivesse vivendo novamente. E comecei assim a
revisitar o passado e ver como as coisas foram diferentes para as outras
pessoas.
- Foi muito bom reviver e lembrar dos fatos...
Olha, são impressionantes como aconteceram.
Foi então que uma ex-colega de escola que me havia
adicionado antes, mas eu nem havia notado, travou um pequeno diálogo comigo.
Não costumo me envolver com as pessoas, afinal são tão complicadas e minha vida
é longe de ser simples.
- Tem sido realmente uma experiência ímpar este
reencontro.
Mas à medida
que o tempo passa, mais e mais as interações acontecem começamos então, a
conversar. Eu admito, estava em um momento muito sensível, sentindo a falta de
ser percebido, de falar sobre coisas que valorizo e eis que de repente surge alguém
que parecia entender justamente cada coisa que eu dizia, e após cada postagem
que eu realizava aparecia um like
logo a seguir. E ainda, lembrava de mim como nem mesmo eu saberia me descrever.
- Acho que curto quase tudo o que você posta...
Aos poucos
ela passa a me chamar diariamente, logo várias vezes por dia, enfim até mesmo aos
fins de semana: acabo sendo cativado por essa relação, e em nenhum momento
parece ser unilateral. Até mesmo sobre o que eu comia, cores, livros, música, uma
receita de caldo de mandioquinha de frango: seu cuidado não era o que se
dispensa a um estranho ou a um conhecido, mas era uma forma afetuosa que me
encantou. Há muito ninguém me falava sobre essas coisas singelas, ninguém mais
notava minha existência.
Pequenas
mudanças, às vezes aparentemente sem significado quando ocorrem, no decorer de
algum tempo podem gerar um efeito grande em nossas vidas. Assim, a partir de
sua receptividade, passamos a conversar e a questionar minha condição, agir
sobre ela. Algo que era incapaz de fazer sozinho. Mas se não hovesse aquela
conversa primeira, não haveria nenhuma outra, e todo o curso seria alterado
para outro sentido. Sentido este, desconhecido. Assim, o que escolhemos, mesmo
as pequenas ações, podem ter um impacto muito grande em nossas vidas no
decorrer do tempo. E, de modo consonante, isto representa a imensa
possibilidade de ações que podemos tomar para transformar a nossa realidade em
algo diferente, às vezes a partir de um gesto tão pequeno.
- Na verdade eu gosto de cheiro de livros
antigos, mas quando penso neste em específico lembro de flor de cerejeira.
Sem nossas
conversas, sem essa identificação, sem essa companhia, eu nunca teria tido
forças, nem mesmo para perceber o que estava acontecendo: estava conformado.
Encontrá-la deu-me esperanças de que existem pessoas melhores para se estar ao
lado, fez-me entender que não preciso viver assim, e tive esperança de que o
futuro ainda pudesse ser algo novo. - Sabe até quando os pequenos hábitos parecem-lhe
tão familiares? Fiquei profundamente impressionado com a pessoa extraordinária
que ignorara existir até então.
Que vocês se conheçam
pelo olhar..que você saiba o que ela quer sem ao menos dizer uma palavra.
Fiquei muito
grato à sua companhia, e cada mensagem que recebia era uma alegria por ser
lembrado. Às vezes sobrevém o pensamento que sua atenção é apenas por pena de
minha existência vazia, e pensei mesmo em deter a fala, pensei em romper este
contato. Mas o bem que me fazia era tão grande que aceitei esta possibilidade,
e me entreguei como que a um vício, compartilhando meu olhar com quem sequer
conheço. E sem conhecer, aprendi a amar cada detalhe de seu dia-a-dia, suas
expectativas e desejos, seus medos e vergonhas, como parte de mim mesmo, ao
ponto de imaginar como seria cada cena que presencio, se visto através de seus
olhos.
Assim,
tornou-se a única pessoa com quem converso e por ela eu vi que havia outra
possibilidade. Algo que eu esquecera. E que o tempo estava passando, e era
imprescindível agir.
- Se eu não me cuidar, quem vai não é? Neste
mundo estranho e violento em que eu vivo.
Existe uma
posição da física que considera que todas as possiveis decisões são tomadas em
cada mudança de estado quântico, nós estamos em apenas em uma das realidades
possíveis dentre as infinitas possibilidades. Então todos os erros e acertos
são, de alguma maneira, sempre cometidos, inevitavelmente, em algum multiverso?
É como deveria
ser..duas almas que se reconhecem e se completam.
Apesar de
sermos apenas pixels iluminados em uma matriz, letras enfileiradas na tela,
tenho essa sensação de verdadeira proximidade que empalidece meus contatos do
dia-a-dia, de modo que cada sensação comunicada estabelece este vínculo
existencial, onde dizer simplesmente “bom dia”, seis letras, convergem todas as
aspirações de um universo.
Você deve conhecer
todos os defeitos dela..e não dar a mínima importância..ela deve ser aquela
pessoa que você só quer a companhia..nem que seja para passar o dia sem fazer
absolutamente nada..mas ser o mais prazeroso dos dias..
− Mas sabe... parte deste mistério é porque a vida toda as coisas bonitas
que eu toquei eu estraguei... E eu tenho medo de fazer novamente... Eu tenho
este dom... Quando toco algo bonito ele estoura como uma bolha bem na minha
frente. Olha, eu sou a pessoa mais errada que você poderia ter escolhido nesta
vida para ter algum tipo de sentimento... Eu estrago tudo, faço tudo que é
bonito, ficar feio e ruim...
Eu não ligava
mais para seus medos, ou que algo possa acontecer... pois o que eu ansiava era
isso: conhecê-la realmente, em todas as dimensões humanas: sua história, como
ri, como fala, as modulações de sua voz, seus amigos, suas atividades, poder
almoçar junto e saber o que sentiu com cada prato, ler o mesmo livro, passear
em um parque apreciando a natureza, conhecer seus filhos, talvez ao final do
dia assar uma torta de maçã, poder ler em voz alta uma poesia que eu goste e
poder ver em seu rosto a apreciação ou reprovação.
- O que eu tentei falar, que pela distância..e
pela forma que falamos, só pelo facebook, não dá para estabelecer uma relação..o
carinho e o cuidado existe sim, mas você mesmo falou, falta o contato, o olhar,
claro que eu gosto de você, mas não posso te dizer nada mais ainda... Não há
uma forma de te falar... não existe futuro entende? Eu estou presa aqui... As
palavras podem ser as mais bonitas e cheias de emoção que existem no mundo...
Mas a minha realidade é muito triste... Eu não vejo uma forma de fazer isso...
Foi isso que
me entendi: se gostasse de mim, tudo seria possível. Mas a gentileza é uma
forma de iludir. Eu vi um futuro, uma esperança de ter encontrado alguém cuja
sensibilidade podia compartilhar, mas foi apenas uma miragem.
A gente passa a vida
toda procurando algo e nunca encontra.. e parece que achou.. ela esta fora do alcance,
é só para você olhar e imaginar como as coisas teriam sido diferentes se a
gente tivesse tomado outro rumo.
[1] Costumavam trazer bacalhau do Alaska até a China. Eles os mantinham
em tanques no barco. Quando finalmente chegavam ao destino, a carne estava sem
textura e sem sabor. Então alguém teve essa idéia de que se você colocar o bacalhau
em grandes tanques e soltar ali uns bagres com eles, o bagre manteria o
bacalhau ágil.
E há essas pessoas que são como o bagre na vida, e elas nos mantém nas
pontas dos pés. Nos deixam confusos, fazem a gente pensar, nos mantém jovens. E
agradeço a Deus pelo bagre, porque seríamos abobalhados, aborrecidos e
estúpidos se não houvesse alguém mordendo nossas barbatanas.
(Catfish, 2010. Rogue, USA, 87 min.)
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