Sunday, June 29, 2014

Indispensável


Quando eu andava pela universidade um olhar tocou ou meu. Diminuí meu passo, mas logo percebi que este olhar parecia ver através de mim, naquele momento eu estava invisível. Não desviou, nem trocou o passo, apenas seguiu tranquila pelo corredor, sem um único sinal de reconhecimento. Passou como uma estranha, passou como se nunca nos tivéssemos visto antes. Simplesmente seguiu com sua vida. A vida que escolheu seguir um dia. Este olhar que me lançou foi indispensável, esta foi a antítese de tantos outros olhares: de curiosidade, do desejo e o olhar que falava uma língua a qual antecedia a voz, este era, afinal, nosso idioma. Olhar. Agora estava encerrado todo o ciclo, com este último olhar, o da indiferença. Agora eu poderia estar tranquilo, conhecia todos os seus olhares e esta história podia ser finalmente se contada.
Escrever é um pouco como brincar com a imortalidade. Enquanto tudo isto estava apenas na minha memória, tudo era tão finito quanto eu mesmo. Mas as palavras, quando são dispostas em um texto, assumem uma vida própria, que podem muito facilmente sobreviver a seu autor. Podem até dizer coisas que seu autor não pretendia. Ou serem meros abortos, condenadas a esvanecerem no vácuo digital.
Combinamos de nos encontrar na Praça da Espanha, logo após o almoço, eu já sabia o que me iria dizer, sabia também que se eu falasse poderia mudar tudo o que cuidadosamente escolhera me dizer. Então demorei a chegar, como que postergando a hora final, ainda sem saber como poderia engolir, com palato amargo, em uma tarde tão ensolarada. Mas em um momento percebi que não poderia mais retardar o que era certo. Eu precisava deixá-la ir. Ainda que a amasse com todas as minhas forças, simplesmente não me via no destino que, em poucos meses, reescreveu para si. E assim, ouvi, em silêncio, tudo o que tinha a me dizer.
Quando nos conhecemos, eu me surpreendia beijando seus lábios e sentindo a língua atrevida invadir minha boca. Mas sempre me perguntava “Quem é essa garota?” Era um constante estranhamento aquela pessoa que mal conhecia estar me beijando com tanta paixão que eu chegava a me questionar sobre minha identidade. Será que não estou no corpo de um outro que ela toma como seu amante de longa data?  Olhava no fundo dos meus olhos sem nenhum temor e parecia me conhecer melhor que a mim mesmo.
Assim foi até uma noite em que saímos para o Largo da Ordem, já devia ser alta madrugada enquanto sentados no banco de concreto que circundava um monumento, a polícia apareceu com sua costumeira brutalidade e começou a despejar a bebida barata dos garotos pelo chão, era apenas o vinho comprado nas mercearias da vizinhança. Mas ela indignou-se com o que policiais faziam e passou a questioná-los. Uma camada viscosa e vermelha como sangue se espalhava, escorria pelo desnível, como um sacrifíco aos deuses da Igreja do Rosário. Acho que neste momento foi que eu comecei a conhecê-la. Pelo seu olhar de ódio, o qual me voltou quando eu disse que deixássemos os policiais saírem e logo tudo voltaria ao normal. Não tive a presença de espírito de dizer que ela estava certa, como tantas vezes depois, mas passei a admirar seu modo combativo e destemido. Talvez nenhuma ação tenha me feito aproximar-me mais dela do que vê-la enfrentado aqueles perplexos policiais, armados pela rudeza de seu trabalho, incapazes de formular uma resposta coerente ao perceberem o vandalismo que acabaram de cometer.
Seu eu a amava? Não, ainda não. Mas ela havia se tornado, usando a expressão de Kundera, meu es muss sein. Uma força incontrolável me pressionava para ela. Por um tempo ainda ela dizia que era bom até que eu passasse a semana longe, pois não se cansaria tão fácil de mim. Mas quando me ligou no Seminário, insegura e frágil, a assumi como meu destino. Há muitas razões para eu ter deixado o Seminário, algumas morais, outras que se resumem em completo tédio, mas o que levou todas elas a se conjurarem em uma escolha, foi este es muss sein.
Isto me faz lembrar de uma missa noturna, na Catedral, à qual eu fora convocado a assistir o Arcebispo. Era sábado de páscoa, e ela me esperava em um quarto de hotel nas redondezas. Eu vesti minha túnica e fui realizar minha função, que implicava inúmeros detalhes que para os católicos compõem este ritual.
 Na manhã seguinte ela iria com amigos a uma trilha de cachoeiras, então a acompanhei até o ponto de encontro, onde uma van os aguardava. Em um último instante ela disse, “venha com a gente”. Nem mesmo havia espaço. Eu estava trajado socialmente, calça, camisa e com uma túnica branca na bolsa a tira-colo. Esperei um carro passar à minha frente e atravessei a rua, para entrar no veículo. Cruzei assim uma linha, dei um passo que não teria retorno. Viver no Seminário dali em diante seria impossível.
Conseguimos uma barraca e acampamos em frente a uma alta queda. O ruído era tão intenso que à noite parecia estar caindo um temporal. E era intenso também o frio, eu não possuía uma única blusa; e durante a noite foi seu corpo, sua pele contra a minha, que me aqueceu. Nenhum outro corpo parecia ter sido desenhado de tal forma a encaixar-se perfeitamente ao meu, e eu já conhecia cada curva, cada detalhe de sua pele, e com a mão em seu peito, sentia seu coração palpitando enquanto dormia. Acordei antes e a fiquei observando até despertar: era neste precioso momento que eu a achava mais bela.
Havia tanta sede deste contato, que não conseguíamos ficar longe um do outro, a cada olhar um beijo, não desses beijos de rotina, mas um beijo que era capaz de convergir nossos mundos e calar o exterior, onde só nós poderíamos existir. Qualquer um que tenha recebido um beijo assim desprezará todos os outros como meros simulacros.
Foi logo então que saí do Seminário e fui morar no meu Caffè. Ela toda manhã vinha me visitar antes da aula, acordava-me lançando seu corpo nu e libidinoso sobre mim, enquanto eu acariciava seu quadril. Uma flor de girassol desenhava-se em suas costas. Acho que não sabia o que era a sexualidade antes dela, tudo havia sido desprovido de sentido. E agora apenas tocá-la já me deixava em completo êxtase. Podia jurar que a razão do universo existir era apenas para que aquele instante acontecesse. E seria suficiente justificativa para toda criação.
Ela adorava meu cheiro, corria as mão ágeis pela minha cintura, respirando minha pele, até nossos olhares se encontrarem repletos de desejo. Seu cabelo curto caía sobre nosso beijo demorado. Algo havia despertado em mim, até então eu considerava a sexualidade algo banal e monótono. Agora eu a desejava ardentemente. Ela era indispensável.
Mas nosso idílio estava submetido às mesmas leis do tempo, e logo fechamos o Caffè e precisei assumir aulas. Sem ter nenhum dinheiro, saía antes de amanhecer de casa, alimentava-me apenas com lanche que era oferecido aos professores, um café com leite e pão com doce. As dificuldades eram tantas que seria inútil detalhá-las.
Mas era após as aulas que eu a encontrava na piscina. Ao me ver ela saía da água e me beijava, com o corpo molhado e gelado, envolvendo-me em um abraço. Sentia a água penetrar através de minhas roupas tão ostensivamente formais. Acho que apenas vê-la saindo da água ofuscava toda a dificuldade, e fazia todo esforço prodigamente recompensado.
A faltar apenas apresentar o relatório de estágio para me formar, começamos a fazer planos. Ela cursaria Design em universidade pública. Teríamos dois filhos, se fosse um casal, o menino seria chamado de Jim e a menina, Janis. Ela já começava a planejar como construiríamos nossos próprios móveis. Descrevia-me como “indispensável”, tinha essa queda por expressões originais.
Mas o fim do ano chegava, e estava já claro que o meu diploma não seria entregue, em seu lugar, apenas uma licença para lecionar poderia ser expedida. Em vista disto, decidi fazer outro exame vestibular, para Química desta vez. Ao mesmo tempo ela se preparava para prestar Design na UFPR. Mas ela não passou. E se culpou por isto. Senti que atribuiu o fracasso ao tempo que passamos juntos.
Nós não nos entendíamos mais, eu perdia a paciência com facilidade por suas requisições, as quais eu não tinha como atender: Eu estava vivendo sem dinheiro e na casa de minha mãe, esquizofrênica, que vez ou outra tinha um sério surto. Na verdade, nem sei se eu contava estas coisas para ela, pelo menos não com detalhes, me envergonhava muito dos constrangimentos que sofria. E tem certas coisas que é melhor esquecer.
Foi então que decidi falar-lhe que deveríamos morar juntos, ter nossa casa o quanto antes. Mas sua resposta foi menos que animadora.
- Veja, eu morando na casa dos meus pais eles pagarão minha faculdade particular, e não é qualquer faculdade, é a melhor que existe. Não tenho que pagar por moradia nem me preocupar com minha alimentação.  Não faz sentido para eu sair de casa agora.
Foi assim percebi que ela havia mudado. Uns dias depois me contou que começou a frequentar uma igreja, e seu discurso mostrava que havia incorporado novas idéias, tão alheias às anteriores que novamente me passei a me perguntar “Quem é essa garota?”. Mas não era com alegria que me surpreendia mais.
- Aqueles que fazem as coisas de Deus, serão abençoados com riquezas. O sucesso de uma pessoa é como o Deus manifesta que a quer bem.
A partir de então uma série de desentendimentos passou a marcar nossa relação até o ponto em que nem mesmo nossa atração sobrevivera intacta. Sentia que seu lado selvagem fora totalmente substituído por uma postura cordata e submissa.
Houve uma noite, lembro-me bem, que fui claro com ela,
- Você acha que vou começar trabalhando onde, no Positivo? Vou certamente começar acordando às quatro e meia da manhã para dar aulas em um colégio do Estado na periferia, pois é só onde vou encontrar trabalho.
- Mas não é isso que quero para mim. – Respondeu-me imediatamente.
Alguns dias depois ela me chamou para conversar, marcou a Praça da Espanha, um local em que já havíamos passado bons momentos juntos, mas eu sabia o que me iria dizer, e não seria bom. Por isto não me apressei. Tive que decidir primeiro para mim o que faria, e neste ponto, só poderia deixá-la viver a vida que deseja.
Se eu a amava? Completamente. Como nunca fui capaz de amar alguém novamente.
- Sabe, logo começo minha faculdade e haverá churrascos e novos amigos. E não vejo você participando disso.

Agora, enquanto escrevo este texto, percebo-me usando uma blusa que ela me deu. Já rota, desbotada, inconscientemente tenho usado esta peça por todos estes anos. E aconteceu deste tecido estar aqui, envolvendo meu corpo como uma vez ela me envolvera, invocando este passado para que, de  certa forma, pudesse voltar à vida.

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